Dourados recebe, no dia 29 de janeiro, uma sessão especial de cinema que une arte e reflexão social. O curta-metragem ‘Nós’ será exibido às 19h30 no Cine Auditório do CEUD, com entrada gratuita, classificação indicativa de 12 anos e programação que vai além da tela, promovendo diálogo com o público.
A produção narra o reencontro inesperado entre uma mãe fragilizada pela doença e a filha que retorna após anos de afastamento. Mulher trans, a filha volta para prestar cuidados e acaba confrontando feridas antigas, silêncios prolongados e sentimentos que nunca foram resolvidos, em uma história marcada por tensão, afeto e humanidade.
Com direção assinada por Thiago e Rafael Rotta e roteiro de Antoni Magalhães, o filme tem 27 minutos e aposta em uma abordagem delicada para tratar temas como pertencimento, aceitação e laços familiares. A narrativa se desenvolve de forma intimista, sem soluções prontas, valorizando gestos sutis, pausas e emoções contidas. O elenco reúne Blanche Torres, Gisele Lemarchal e Nana Coloral.
A escolha da data de exibição não é aleatória: o lançamento acontece no ‘Dia Nacional da Visibilidade Trans’ e propõe ampliar o debate para além do cinema. Após a sessão, haverá uma conversa aberta mediada por Claudia Assunção, ativista trans de Dourados, fortalecendo o espaço como um encontro de escuta, troca de experiências e valorização da diversidade.
Nós reúne Blanche Torres, Gisele Lemarchal e Nana Coloral no elenco, com direção dos Irmãos Rotta e roteiro de Antoni Magalhães; a produção executiva é de Thiago Rotta, com Caroline Alves como produtora e Raquel Stainer Charão na assistência de direção. Rafael Rotta assina a direção de fotografia, montagem e color grading, enquanto Antônio Rosa é responsável pela captação de áudio, Thiago Rotta pela direção de arte, e Lorena Freitas pela caracterização.
Tema Urgente
O curta-metragem ‘Nós’ chega ao público como uma obra que aposta na delicadeza para tratar temas urgentes da contemporaneidade, especialmente as relações familiares atravessadas por identidade, afeto e pertencimento.
“Desde a concepção do projeto, pensamos o filme para ser lançado no mês da Visibilidade Trans, porque acreditamos que o cinema precisa conversar com a sociedade e com o seu tempo. Mais do que entretenimento, ele pode ser uma ferramenta de transformação. Ao mostrar a relação entre mãe e filha, falamos de silêncios, afetos interrompidos e das dificuldades de aceitação no ambiente familiar”, contou o diretor Thiago Rotta, em entrevista ao jornal O Estado.
Ao escolher o ‘Dia Nacional da Visibilidade Trans’ para a estreia, a produção dos Irmãos Rotta reforçam o compromisso de dialogar com o presente, utilizando o cinema como espaço de escuta, sensibilidade e reflexão social, sem recorrer a discursos fáceis ou soluções simplificadas. Queremos provocar uma reflexão sensível, deslocando o olhar da violência para a dignidade, o cuidado e a possibilidade de reconciliação”, complementa.
Evitando estereótipos
Ao abordar a vivência de uma mulher trans no núcleo familiar, o curta Nós adota uma construção narrativa pautada pela ética e pela escuta, buscando se afastar de representações simplificadas ou estigmatizantes.
“Desde o começo entendemos que não dava para contar essa história apenas por suposição. O projeto foi construído a partir de muita escuta e troca. Conversamos com mulheres trans e, quando a Gisele Lemarchal entrou no filme, criamos um canal permanente de diálogo para que a personagem fosse atravessada por uma experiência vivida. Nosso compromisso foi não reforçar estigmas nem caricaturas”, afirmam os irmãos Rotta.
O processo criativo envolveu pesquisa, diálogo e a participação ativa de pessoas trans, o que contribuiu para uma abordagem mais honesta e plural, centrada na complexidade das relações e nos conflitos afetivos que atravessam mãe e filha.
“O filme não fala sobre pessoas trans, mas com elas, mostrando alguém complexo, com afetos, contradições e conflitos reais, especialmente dentro da família, onde a aceitação nem sempre é simples”, complementam.
Fotografia
A construção visual de “Nós” desempenha papel central na narrativa, utilizando a fotografia como elemento emocional e não apenas estético. A direção de imagem aposta em uma linguagem contida e sensorial, na qual luz, enquadramentos e movimentos de câmera acompanham os estados internos das personagens.
“Nossa preocupação foi fazer com que a fotografia servisse à história e ao emocional das personagens. A luz foi pensada de forma suave e lateral, valorizando sombras e texturas, criando um clima de introspecção e fragilidade. Os enquadramentos surgem sempre da narrativa: no início, mais distantes, evidenciando o conflito, e depois vão se aproximando conforme a relação muda”.
A proposta é traduzir sentimentos como solidão, isolamento e tensão afetiva, permitindo que a imagem dialogue de forma direta com os silêncios e conflitos que marcam a relação entre mãe e filha.
Ativismo em Dourados
A estreia do curta Nós em Dourados ganha um peso especial ao contar com a presença de Claudia Assunção, ativista trans e referência na cidade. Coordenadora municipal de Políticas Públicas para a Diversidade Sexual, ela também é vice-presidente do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres e uma das pioneiras da Parada da Diversidade em Dourados.
“Escolhemos estrear Nós em Dourados porque o filme nasce aqui e dialoga diretamente com a realidade do território. É uma decisão política e afetiva, mostrando que o cinema não precisa ser exclusivo dos grandes centros. Queremos que a obra circule, mas é fundamental que o percurso comece onde a história foi construída”.
Com uma trajetória marcada por conquistas históricas, Claudia foi a primeira mulher trans do município a ter o nome retificado em documento civil e a oficializar o direito ao casamento civil, além de ter atuado como coordenadora do Centro de Referência em Direitos Humanos e Cidadania LGBT.
Trazer a Claudia para mediar o debate amplia a experiência, conectando a narrativa às vivências e às políticas públicas locais. Assim, a sessão vira um espaço de escuta e troca, onde a comunidade pode se reconhecer e pensar coletivamente”, explicou o diretor Thiago Rotta ao jornal O Estado.
“Escolhemos estrear Nós em Dourados porque o filme nasce aqui e dialoga diretamente com a realidade do território. É uma decisão política e afetiva, mostrando que o cinema não precisa ser exclusivo dos grandes centros. Queremos que a obra circule, mas é fundamental que o percurso comece onde a história foi construída”, finaliza.
Serviço: O lançamento do curta-metragem Nós acontece no dia 29 de janeiro, às 19h30, no Cine Auditório do CEUD, localizado na Rua João Rosa Góes, 1761, na Vila Progresso, em Dourados (MS). A entrada é gratuita e, após a exibição, haverá um bate-papo aberto ao público.
Por Amanda Ferreira
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