Espetáculo estreia com apresentações gratuitas em praças de Campo Grande e realiza ensaios abertos e roda de conversa sobre ancestralidade
A cidade se transforma em cena com a chegada do espetáculo “Beije Seu Preto em Praça Pública”, que propõe encontros diretos entre arte, afeto e espaço urbano ao longo do mês de janeiro. A obra aposta na ocupação de teatros e praças como forma de aproximação com o público, ampliando o acesso e colocando o debate sobre amor, memória e existência negra no centro da vida cotidiana.
Como parte do percurso de criação, o público é convidado a acompanhar etapas do processo artístico em ensaios abertos nos dias 20 de janeiro, das 16h às 17h, e 21 de janeiro, das 16h às 18h, este último seguido de roda de conversa sobre ancestralidade, ambos realizados no Teatro Aracy Balabanian. Após esse momento, o espetáculo ganha as ruas com apresentações gratuitas no dia 22 de janeiro, às 19h, na Orla Morena; 23 de janeiro, às 19h, na Praça Ary Coelho; e 26 de janeiro, às 19h, na Plataforma Cultura.
A narrativa acompanha Clara e Bento, que constroem sua relação por meio de cartas trocadas em um contexto marcado por perdas, inseguranças e violências constantes. A correspondência se torna espaço de permanência do desejo e da esperança, revelando um amor que resiste às tentativas de apagamento e reafirma corpos negros como territórios vivos de lembrança, força e continuidade. A cena propõe novos imaginários, deslocando o afeto do campo da exceção para o da afirmação política.
A montagem tem direção de Ligia Tristão Prieto e produção executiva de Jessica Santos. A criação, atuação e dramaturgia são assinadas por Leonardo de Medeiros, em parceria com Sofepoar, que também integra o elenco. A preparação de elenco é de Gal Martins, enquanto a direção de arte é compartilhada por Ligia Tristão Prieto e Leonardo de Medeiros, com figurinos de Jéssika Rabello.
A sonoplastia é de Leonardo de Castro e a iluminação de Fernando Averaldo. A produção é de Mariana Castelar, com fotografias de Gabriella Thais. A comunicação conta com assessoria de imprensa de Lethícia Rodrigues, social media e design gráfico de Vini Ferreira e design gráfico e identidade visual de Raytcha.
Sobre a peça
A cena acompanha Clara e Bento, duas pessoas negras que constroem sua relação a partir de cartas trocadas em um cotidiano atravessado por ausências, ameaças e incertezas. Em meio ao desaparecimento de pessoas próximas e à violência que insiste em cercar suas existências, a escrita se torna abrigo, registro de desejo e insistência na possibilidade de amar. O espetáculo desloca o olhar comum sobre corpos negros, tratando-os como arquivos vivos de lembrança, força e continuidade, onde o afeto não surge como fuga, mas como escolha política e ação de coragem.
“A praça é o território da vida acontecendo”
O criador, ator e dramaturgo Leonardo Medeiros contou para o Jornal O Estado que “Beije Seu Preto em Praça Pública” nasce do deslocamento do afeto para o centro da cena como escolha estética e política. Para ele, a pergunta sobre o que acontece quando o amor se transforma em ato político atravessou toda a dramaturgia e as decisões de encenação, especialmente ao optar por levar a obra para espaços abertos da cidade.
“O amor sempre esteve no centro da existência, mas nunca de forma plena para nós que vivemos à margem. Corpos pretos são desejados, objetificados, mas raramente legitimados”, afirma Leonardo.
Segundo ele, colocar dois corpos pretos se beijando em praça pública é “um gesto político, histórico e radical”, que afirma memória, luta e pertencimento.
“A praça é o território da vida acontecendo. Levar esse amor para lá é interromper a normalidade para afirmar uma existência que sempre tentaram apagar. Oamor sempre esteve no centro da existência, mas nunca de forma plena para nós que vivemos à margem. Corpos pretos são desejados, objetificados, mas raramente legitimados. Levar dois corpos pretos se beijando para a praça pública é um gesto político, histórico e radical”.
Ao tratar o amor negro como potência criadora, o espetáculo se afasta deliberadamente de narrativas que reduzem corpos pretos à violência e à perda. Leonardo destaca que a construção dramatúrgica foi resultado de um processo coletivo, marcado por escuta, experimentação e pela integração entre corpo, palavra e direção.
A cena surge como um campo de disputa simbólica, onde o afeto aparece não como negação do conflito, mas como força capaz de reorganizar sentidos e produzir novas imagens de existência.
“A dramaturgia não veio pronta. Foram muitas horas de ensaio, de escuta, de tentativa e erro, entendendo onde o silêncio era suficiente e onde a palavra precisava se expandir. Quando o afeto aparece como ato político, não existe retorno. É o abismo, e nós escolhemos cair, mas cair amando. O corpo assume aquilo que a palavra não dá conta, ora em tensão, ora em silêncio, ora em celebração”, explica Leonardo.
“Liberdade de existência e de felicidade”
Para o Jornal O Estado, a diretora Lígia Tristão, conta que “A metodologia A Escuta da Criação” orienta todo o processo de construção do espetáculo propondo uma relação mais horizontal entre direção, elenco e dramaturgia. A prática parte da experiência individual de cada intérprete, transformando vivências, memórias e sensações em matéria cênica.
A cena se constrói a partir do encontro entre essas criações íntimas e o espaço coletivo, resultando em uma dramaturgia autoral, atravessada pelo corpo e pela escuta como gesto político. No espetáculo, a metodologia se soma ainda à preparação corporal conduzida por Gal Martins, aprofundando a presença física e simbólica dos intérpretes em cena.
“A Escuta da Criação convida o intérprete a mergulhar na própria historicidade e entender que cada gesto, cada silêncio e cada palavra vêm desse encontro do corpo com suas marcas. É uma partilha com o mundo como ato político de existência. Esse trabalho nasce do meu desejo de celebrar uma festa do amor com corpos pretos em praça pública, e ver isso acontecer com uma equipe inteira de pessoas pretas é emocionante, potente e um privilégio”.
A estética de Beije Seu Preto em Praça Pública combina dourado, prateado e metal para evocar grandiosidade e ancestralidade, reforçando a presença política dos corpos pretos no espaço público. Figurinos e cores dialogam com a memória coletiva e elementos culturais, como os orixás Ogum e Iansã, criando uma linguagem visual que celebra poder, amor e resistência.
“Desde o início, queríamos viver o sentido da realeza e trazer uma composição grandiosa da ancestralidade dos povos pretos. Nosso objetivo é construir imaginários em que possamos viver o amor e a potência, e não apenas a dor. Sofepoar e eu somos duas realezas em cena, vestidos com a força dos figurinos de Jéssika Rabello, celebrando a festa do amor. A estética, com dourado, prateado, terra cota e azul, não é só beleza, é política: é retomar tronos e afirmar a presença dos corpos pretos com ancestralidade e poder”, finaliza.
“Beije Seu Preto em Praça Pública” tem recursos da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), do Governo Federal, por meio do MinC (Ministério da Cultura) e pela Prefeitura de Campo Grande – MS.
Serviço: O espetáculo Beije Seu Preto em Praça Pública realiza ensaio aberto no dia 20 de janeiro, das 16h às 17h, e, no dia 21 de janeiro de 2026, acontece um ensaio aberto seguido de roda de conversa sobre ancestralidade, das 16h às 18h, no Teatro Aracy Balabanian. A entrada é gratuita, com reservas pelo Sympla. As apresentações abertas ao público acontecem no dia 22 de janeiro, às 19h, na Orla Morena; no dia 23 de janeiro, também às 19h, na Praça Ary Coelho; e no dia 26 de janeiro, às 19h, na Plataforma Cultura.
Amanda Ferreira