Entre a finitude e a celebração da existência, advogado transforma diagnóstico terminal em um convite coletivo à reflexão, ao afeto e à intensidade de viver no “Velório em Vida – A Despedida do Bom Sujeito”, que acontece neste sábado
“Eu tenho câncer, mas o câncer não me tem”. É a partir dessa frase que o advogado e turismólogo Tiago Martins Pitthan, de 49 anos, passou a ressignificar a própria trajetória após receber, em 2024, o diagnóstico de câncer de estômago. Ao longo dos meses, a doença avançou e chegou a um estágio sem possibilidade de cura, levando o profissional a encarar a morte não como um fim abrupto, mas como parte do ciclo natural da vida.
Diante desse cenário, Tiago decidiu transformar o próprio adeus em celebração. No dia 30, ele promove o “Velório em Vida – A Despedida do Bom Sujeito”, como é conhecido entre amigos, reunindo pessoas próximas em um encontro marcado pela música e pela confraternização. Em mensagem divulgada, ele afirmou que, mesmo enfrentando dias difíceis, quer aproveitar o tempo que ainda tem para celebrar:
“Quero festejar, rir e viver esse momento com vocês. Não quero ser apenas um corpo em um caixão; quero estar presente, junto, vivendo a minha despedida com alegria”.
A programação inclui apresentações musicais de artistas locais, DJs e bandas de diferentes estilos, além de chope e porções comercializadas no local. Segundo Tiago, a intenção é criar um ambiente de alegria e acolhimento, distante da tristeza normalmente associada à morte.
Do luto a celebração
Tiago explicou que a decisão de transformar um momento delicado em uma celebração em vida nasceu a partir da experiência vivida no velório do próprio pai, em 2024. Já diagnosticado com câncer em estágio terminal, ele relata que a despedida paterna acabou sendo marcada por lembranças, histórias e afeto entre amigos e familiares, o que despertou nele uma reflexão sobre a forma como gostaria de ser lembrado no futuro.
Meses depois, com o avanço da doença e o agravamento do quadro de saúde, a ideia deixou de ser apenas um pensamento e passou a ganhar forma como uma decisão concreta.
“Tudo começou no velório do meu pai, que acabou sendo um momento muito bonito, cheio de histórias e lembranças. Eu estava ali já sabendo do meu diagnóstico e pensava que ele merecia ter ouvido tudo aquilo em vida. Naquele dia eu tive a certeza de que não queria faltar no meu próprio velório. Depois, quando meu estado piorou, com perda de peso e dificuldades para respirar, entendi que era hora de transformar isso em realidade. Eu quero estar bem o suficiente para viver essa despedida, celebrar e aproveitar esse momento enquanto ainda posso”, contou Tiago para a reportagem.
A escolha da data do evento, marcado para 30 de maio, está diretamente ligada a um motivo afetivo: a possibilidade de reunir toda a família, incluindo o irmão que vive em Portugal e conseguiu organizar uma viagem para estar presente. Segundo ele, a definição do dia foi pensada justamente para garantir esse encontro completo, considerado essencial dentro da proposta de celebração em vida.
Tiago também destacou que a forma como decidiu encarar o momento passa por dar nome às situações difíceis, sem evitar termos como câncer, morte ou velório, o que, em sua visão, torna o processo mais humano e menos pesado.
“Muita gente evita falar de morte ou câncer, mas eu prefiro encarar de frente, porque acredito que isso deixa tudo mais leve. Para minha família ainda é difícil, principalmente para a minha mãe, mas eu tento conduzir da forma mais tranquila possível, pensando também no lado emocional deles, porque sei que todos acabam sofrendo junto comigo”, revela Tiago.
Caminhante não há caminho
Mesmo após o diagnóstico, mantém uma visão otimista da vida e reforça que sua forma de encarar o cotidiano sempre foi guiada por leveza e positividade. Ele explicou que a experiência com a doença intensificou ainda mais a valorização das relações pessoais e do presente, fazendo com que o foco deixasse de ser o destino final e passasse a ser o percurso vivido ao lado de amigos e familiares.
“Meu apelido de ‘Bom Sujeito’ não é por acaso, porque sempre procurei ser um cara positivo, bem com a vida. Eu gosto muito de uma frase de Antonio Machado que diz que o caminho se faz ao andar, e eu sempre levei isso comigo. Agora isso ficou ainda mais forte. Quero aproveitar mais o dia a dia, estar mais perto dos meus amigos e da minha família. No fim, o que importa não é o destino, mas com quem a gente está caminhando e como a gente vive essa trajetória”, disse.
Tiago acredita que a forma como vem compartilhando sua experiência pode ajudar outras pessoas a refletirem de maneira diferente sobre a morte, ainda tratada como tabu por muitos. Ele relata que tem recebido mensagens de apoio e agradecimento, o que, segundo ele, reforça a importância de falar abertamente sobre um diagnóstico considerado terminal e sobre a própria finitude, sem evitar o tema ou suavizar sua realidade.
“Eu acredito muito nisso, e é isso que me move hoje. Não é uma situação fácil, eu tenho um câncer terminal e provavelmente vou morrer por causa dele, mas sigo vivendo o presente. Algumas pessoas perguntam como é estar morrendo, e eu digo que não sei, porque estou vivendo. Eu vou morrer uma vez só, e espero que tudo isso faça parte do meu legado e da forma como vão se lembrar de mim”, revela.
Programação
O evento está marcado para começar a partir das 15h, na antiga Cervejaria Canalhas, localizada na Rua Marechal Câmara, nº 214, no bairro Jardim Seminário, em Campo Grande. Ao longo da tarde e da noite, o público poderá acompanhar apresentações de Miralonso MPB, do grupo Caos na Madeira, além das bandas Punk e os Malditos, Coquetel Blue e Cassino Boogie, com discotecagem do DJ Samambaia.
O velório em vida também contará com venda de chope da própria cervejaria e porções variadas no local, além da presença das “meninas do Sapadog”, que irão oferecer lanches durante a programação.
O advogado explicou que a proposta do evento foi construída justamente para manter um ambiente leve, mesmo diante do tema sensível. Segundo ele, a ideia é transformar o encontro em uma celebração da vida, reunindo música, samba, amigos e momentos de convivência afetiva, sem espaço para tristeza ou luto tradicional.
“Sim, era muito importante que tivesse esse clima de festa, algo alegre e pra cima. Apesar do nome ‘velório’, não é sobre morte, é sobre vida. É uma celebração da minha vida e de todas as pessoas que fizeram parte dela. A intenção é justamente essa: reunir todo mundo para se divertir, com leveza, sem tristeza, como uma festa bonita, acolhedora e cheia de boas lembranças”, afirmou ao Jornal O Estado.
Ele destaca que a proposta é transformar o dia em uma celebração da existência, onde amigos e familiares possam se conectar a partir da memória, do afeto e da convivência.
“Nesse encontro eu vou rir, vou chorar, vou me emocionar e também vou me divertir. Vai ser um dia lindo, de verdade. Eu quero viver esse momento intensamente, e quem estiver lá também vai viver isso comigo. A mensagem que eu quero deixar é simples: a vida é para ser vivida, não apenas sobrevivida. Vamos viver, vamos aproveitar, vamos ser felizes”, finaliza.
Amanda Ferreira
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