“Para mim são bandidos até hoje”, diz Bernal sobre auditor-fiscal e chaveiro

Foto: Maria Gabriela Arcanjo
Foto: Maria Gabriela Arcanjo

O segundo dia de audiências do caso que apura a morte de Roberto Mazzini pelo ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, realizada nesta terça-feira (27), na 1ª Vara do Tribunal do Júri. Ao longo da sessão, foram ouvidas 12 testemunhas de defesa e o próprio Bernal prestou interrogatório por horas, reforçando a tese de que acreditava estar diante de uma invasão à residência onde morava e mantinha o escritório.

Logo no início do depoimento, Bernal afirmou que fazia questão de “contar a verdade dos fatos” e negou que o imóvel da Rua Antônio Maria Coelho estivesse abandonado.

“Eu moro nessa casa há 13 anos, sou um homem de família”, declarou.

Segundo ele, a residência apresentava sinais de infiltração após fortes chuvas e, por isso, parte dos móveis havia sido retirada da sala para uma futura pintura. O ex-prefeito afirmou ainda que havia roupas, documentos pessoais e objetos da família espalhados pelos cômodos e alegou que parte desses ambientes não teria sido analisada pela perícia.

Bernal também negou ter afirmado anteriormente que não residia no imóvel.

“Eu jamais falaria que eu não moro numa casa onde meus móveis, meu computador e os arquivos dos meus clientes estão lá”, disse.

Dívidas e disputa pelo imóvel
Durante o interrogatório, o ex-prefeito relatou dificuldades financeiras provocadas por ações judiciais que, segundo ele, bloquearam seus bens durante anos. Bernal afirmou que vinha negociando a dívida do imóvel junto à Caixa Econômica Federal e disse que não sabia que a posse da residência já havia sido consolidada.

“Eu pessoalmente não recebi nenhuma notificação”, afirmou.

Bernal também declarou que chegou a procurar a Caixa após tomar conhecimento da situação e ouviu de funcionários que o banco não autorizaria a entrada de terceiros na residência.
“Eu fui até a Caixa Econômica Federal e os funcionários me disseram: ‘a Caixa Econômica não faz isso’”, relatou, ao comentar a presença de Mazzini no imóvel meses antes do crime.

“Achei que eram ladrões”
No depoimento, Bernal voltou a citar episódios anteriores de invasão e furto na residência. Segundo ele, a casa chegou a ser revirada durante um furto ocorrido em julho de 2025, quando uma camiseta autografada do Corinthians foi levada.

O ex-prefeito afirmou ainda que passou a desconfiar que estava sendo monitorado após encontrar a carteira da OAB e uma ampulheta posicionadas de forma incomum dentro da casa.
De acordo com Bernal, meses antes do crime a empresa de segurança New Line teria informado uma nova tentativa de invasão envolvendo um casal e um chaveiro.

No dia do homicídio, Bernal disse que voltava de Rochedo quando recebeu uma ligação da empresa de monitoramento informando sobre movimentações na residência.

“Me arrependo amargamente de ter ido”, declarou.

Segundo ele, ao chegar ao imóvel, encontrou dois homens e acreditou que ambos estavam armados. Bernal disse que um dos homens teria avançado em sua direção e que, diante da situação, efetuou os disparos. O ex-prefeito ainda sustentou que os dois tiros foram disparados em sequência, enquanto Mazzini ainda estava em pé.

“Eu não atirei nele deitado”, declarou.

O laudo pericial aponta que o segundo disparo ocorreu a curta distância, mas não conclui se a vítima estava em pé ou caída no momento do tiro. Bernal também afirmou que nunca havia visto Mazzini antes. Quando questionado sobre o motivo que não esperou a polícia para entrar na casa, ele ressaltou.

“Eu não fui para matar ninguém. Eu fui ver bandidos que estavam na minha casa. É como você ver um ente querido seu sendo estuprado”, declarou.

Testemunhas reforçam versão da defesa
Vizinho do ex-prefeito há mais de uma década, Jamil Felix afirmou que encontrava Bernal no imóvel pelo menos três vezes por semana. “Abandonada nunca esteve”, declarou.

Jamil também contou que, cerca de três meses antes do crime, viu Mazzini acompanhado de uma mulher e de um chaveiro tentando acessar o imóvel. Segundo ele, o alarme disparou e equipes da empresa de monitoramento foram acionadas.

“Uma pessoa dizia que era proprietária da casa, mas não apresentou documento nem mandado judicial”, afirmou.

O piscineiro Eunício Rodrigues da Silva relatou que trabalhou por 13 anos na residência e disse que esteve no local até o sábado anterior ao crime.

“Falava da vida, de política, várias vezes”, disse sobre as conversas com Bernal na varanda da casa.

Os delegados Valmir Messias de Moura e Luiz Alberto também foram ouvidos. Valmir afirmou que Bernal já havia registrado boletins de ocorrência por ameaça, injúria e difamação e relatava sentir-se perseguido.

“Ele sempre teve essa convicção de que alguém poderia estar seguindo e ameaçando ele”, disse.

Durante a audiência, a defesa também solicitou a reprodução das imagens das câmeras de segurança da residência, alegando que Bernal ainda não havia assistido aos vídeos do sistema de monitoramento.

Por Maria Gabriela Arcanjo

 

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