Com média de 25 denúncias diárias de violência contra a mulher, moradoras de Campo Grande têm buscado cada vez mais ferramentas de defesa pessoal. Spray de pimenta, versões à base de extratos vegetais e outros itens de proteção passaram a ser procurados principalmente por mulheres que relatam medo ou sensação de ameaça no dia a dia.
Segundo comerciantes do setor, a procura aumentou nos últimos anos, principalmente em pontos físicos de venda, já que muitas consumidoras preferem adquirir o produto imediatamente. O spray de defesa pessoal é vendido, em média, por cerca de R$80, dependendo do modelo e da composição.
O debate sobre o uso desses dispositivos ganhou força após a aprovação, na última quarta-feira (11), de um projeto de lei na Câmara dos Deputados que autoriza a venda e o uso de spray de pimenta ou de extratos vegetais para autodefesa por mulheres a partir de 16 anos. A proposta prevê que os produtos possam ser utilizados como medida de defesa pessoal.
Dados do Dossiê Mulher Campo-grandense 2026 mostram que a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) registrou 9.209 boletins de ocorrência por violência contra a mulher em 2025 na Capital, o equivalente a aproximadamente 25 denúncias por dia.
Procura por proteção
Diante desse cenário, o jornal O Estado procurou estabelecimentos que comercializam produtos de defesa pessoal para entender como as mulheres têm buscado formas de proteção. Segundo vendedores, as mulheres lideram as compras, muitas vezes após se sentirem ameaçadas.
Em uma loja localizada no centro da Capital, um comerciante de 45 anos afirma que a procura pelo spray de pimenta cresceu justamente por causa da sensação de insegurança. “A procura pelo spray de pimenta, principalmente pelas mulheres, acontece por causa da onda de violência que vemos diariamente. Muitas vêm porque querem se prevenir”, afirma.
De acordo com ele, diversas clientes chegam ao local após episódios de ameaça ou situações de risco. Algumas, inclusive, retornam depois para contar que conseguiram evitar crimes. “Já teve mulheres que voltaram para dizer que conseguiram se livrar de assalto ou de tentativa de estupro por causa do spray. Em um caso, uma cliente contou que estava em um ponto de ônibus na região das Moreninhas quando percebeu um suspeito se aproximando. Quando ele anunciou o assalto, ela usou o spray e conseguiu fugir”, relata.
O comerciante explica que o produto é procurado por ser uma alternativa rápida de defesa pessoal. “O spray reduz o poder de reação do agressor naquele momento, permitindo que a pessoa consiga escapar”, diz. Além do spray de pimenta, versões feitas com extratos vegetais, como o spray de gengibre, também têm procura semelhante entre as consumidoras.
Outros itens de defesa
Em outro estabelecimento da região central, uma vendedora de 26 anos afirma que, além do spray, mulheres têm buscado outros equipamentos de defesa pessoal, como tasers, canivetes e acessórios de proteção. Segundo ela, a procura aumentou principalmente nos últimos dois anos.
“Todo dia aparece alguma mulher procurando esses itens. Muitas contam que passaram por alguma situação de ameaça ou tiveram problemas com ex-companheiros”, relata.
A vendedora lembra de um caso recente em que uma cliente comprou mais de um equipamento após receber ameaças. “Teve uma mulher que veio comprar um taser e também o spray porque estava sendo ameaçada pelo ex-namorado. Ela disse que queria ter mais segurança e até comprou uma câmera para colocar na casa dela”, afirma.
De acordo com a comerciante, o taser é um dos itens mais procurados atualmente. “Antes o spray de pimenta demorava meses para vender, mas de uns dois anos para cá a procura aumentou bastante. O taser, por exemplo, vende muito e às vezes precisa ser reposto todo final de semana”, explica.
Sensação constante de medo
Para muitas mulheres, a busca por itens de defesa pessoal está diretamente ligada à sensação constante de insegurança. Uma jovem de 20 anos, entrevistada pela reportagem, afirma que considera importante que as mulheres tenham meios de se proteger. “Todo dia a gente vê notícias de estupro, assassinato ou violência contra mulher. Acho que precisamos ter algo para nos defender”, afirma.
Ela acredita que a liberação do spray de pimenta poderia ajudar mulheres em situações de risco. “Pode não acabar com a violência, mas pode ajudar a pessoa a conseguir fugir”, avalia.
A jovem também relata que a sensação de medo faz parte da rotina feminina. “Quando eu andava de ônibus sentia muito medo. Hoje, mesmo de carro, eu entro e já travo as portas. A gente vive sempre em alerta”, diz.
Projeto aprovado na Câmara
O projeto, que segue para análise do Senado, prevê que o produto poderá ser utilizado por mulheres maiores de 18 anos. Já adolescentes entre 16 e 18 anos poderão ter acesso ao equipamento desde que haja autorização expressa do responsável legal.
De autoria da deputada Gorete Pereira (MDB-CE), a proposta tem como objetivo ampliar mecanismos de proteção para mulheres diante de situações de violência física ou sexual.
Pelas regras previstas, o spray deverá ser de uso individual e intransferível e não poderá conter substâncias com efeito letal ou que causem toxicidade permanente. O uso será considerado legítimo apenas quando houver agressão injusta, atual ou iminente, devendo ser empregado de forma moderada e apenas até neutralizar a ameaça.
Caso seja utilizado fora dessas circunstâncias, a usuária poderá sofrer penalidades que variam de advertência formal até multa entre um e dez salários mínimos.
Para adquirir o produto, será necessário apresentar documento oficial de identificação com foto e comprovante de residência fixa, além de preencher uma autodeclaração informando não possuir condenação por crime doloso cometido com violência ou grave ameaça.
O projeto também determina que, em caso de roubo ou furto do spray, a proprietária deverá registrar Boletim de Ocorrência no prazo de até 72 horas.
Geane Beserra e Maria Gabriela Arcanjo