Maria, e as filhas Stella Maristella, e Fran lideram o Grupo Nelore Cometa e reforçam a presença feminina na pecuária brasileira
No Dia Internacional da Mulher, a história de Maria Queiroz, 66 anos, ganha ainda mais significado. Sócia fundadora e matriarca do grupo Nelore Cometa, ela viu o negócio crescer e, com o tempo, ser assumido também pelas três filhas: Stella, de 41; Maristella, 36; e Francianny, 35. Juntas, elas formam uma sociedade familiar que atua na pecuária e na genética nelore, unindo tradição, tecnologia e sustentabilidade.
Segundo Maria, o envolvimento das filhas no negócio não foi imposto. “Elas decidiram por conta própria. Sentiram que era o momento de se envolver em algo que também é delas”, afirma. Como em toda empresa familiar, divergências já surgiram ao longo do caminho. “Isso é normal. Já houve decisões diferentes das nossas, que somos fundadores, mas sempre tratamos tudo com respeito.”
Para garantir equilíbrio entre as relações pessoais e profissionais, a família estruturou um conselho de sócios. “No conselho tratamos de estratégia e investimento. Em casa, somos família”, resume Maria, destacando a importância da separação clara entre os papéis.
À frente de pautas estratégicas e integrante do comitê de sustentabilidade do grupo, Maristella, acredita que o futuro da pecuária brasileira é cada vez mais técnico. “Hoje nossas decisões são orientadas por análise de dados. A evolução dos programas de avaliação genética trouxe avanços importantes na produtividade, na eficiência alimentar e na qualidade dos animais”, explica.
Ela reforça que a sustentabilidade nunca foi tendência passageira dentro da empresa. “Sempre foi cultura.” Um dos exemplos está na Fazenda Cometa do Pantanal, localizada entre os rios Paraguai e Jauru, onde, de aproximadamente 20 mil hectares, cerca de 75% permanecem preservados com vegetação nativa.
Além da preservação ambiental, o grupo desenvolve ações como a doação de mudas frutíferas para áreas urbanas e a distribuição de espécies nativas a parceiros e clientes. “Preservar não é apenas obrigação, é compromisso”, afirma.
Stella, destaca que o setor mudou profundamente desde o início da trajetória da família. “Antes o foco era volume. Hoje pensamos em eficiência, sustentabilidade, genética e indicadores de desempenho.” A tecnologia passou a fazer parte da rotina: drones, rastreabilidade individual, balanças automatizadas e internet via satélite integram a gestão das propriedades.
A profissionalização também avançou na administração, com planejamento estratégico, softwares de gestão e acompanhamento constante de resultados.
Liderar onde ainda somos minoria
Mesmo com avanços, o agro ainda é majoritariamente masculino. Nas fazendas do grupo, cerca de 89% dos colaboradores são homens. Para Stella, liderar nesse ambiente é desafiador. “Precisamos ter firmeza e sensibilidade ao mesmo tempo. Não chegamos para competir, mas para contribuir.”
Fran, acredita que o conhecimento é a principal ferramenta para conquistar espaço. “É preciso entender o negócio, se aprofundar em uma área e trabalhar com indicadores. Quando você tem propriedade sobre o assunto, ganha respeito”, afirma.
Ela também destaca um ensinamento marcante da mãe na gestão: o olhar atento aos detalhes. “Ela sempre questiona um número, uma despesa, um resultado. Mesmo pequeno, tudo importa.”
Respeito e Família como base
A preparação da próxima geração já faz parte das conversas da família. O caminho, segundo elas, é envolver desde cedo, mostrar o valor do negócio e também os desafios da atividade.
Entre reuniões formais do conselho e grupos de mensagens da família, o diálogo é constante. Divergências existem, mas devem ser conduzidas com maturidade. Se precisassem definir a sociedade em uma palavra, talvez fosse respeito, elemento que atravessa gerações e sustenta tanto a família quanto a empresa.
Em um setor historicamente masculino, quatro mulheres de idades e experiências diferentes constroem juntas um legado no campo. No Dia da Mulher, a trajetória da família reforça que a presença feminina no agro não é exceção: é competência, gestão e continuidade.
Por Ana Krasnievicz