Projeto transforma memórias das infâncias brasileiras em apresentações para crianças e educadores
O espetáculo “O Colecionador de Brincadeiras” nasce do gesto delicado de escutar, guardar e devolver ao mundo aquilo que atravessa gerações: as brincadeiras, cantigas e histórias que moram na memória afetiva das infâncias brasileiras.
Foi a partir das experiências formativas de Edu Brincante na Casa de Ensaio, em Campo Grande–MS, Casa Redonda (Centro de estudos dedicado à infância e cultura brasileira – SP) e no Instituto Brincante -SP, referência nacional na valorização das tradições populares, que o projeto começou a ganhar corpo.
O projeto ‘De Roda em Roda’ é resultado direto desse percurso formativo e integra ações de pesquisa, intercâmbio e devolutiva artística. Em 2025, já promoveu uma roda de conversa com o tema “O brincar como linguagem de conhecimento” para acadêmicos da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul) e uma oficina de brincadeiras para os alunos da Casa de Ensaio, ampliando o diálogo entre formação e prática. No dia 21 de fevereiro de 2026, realizou também uma oficina de contação de histórias voltada a professores, fortalecendo a dimensão pedagógica do brincar como linguagem cultural.
Somadas a mais de vinte anos de investigação em cultura popular e aos encontros com as mestras Lydia Hortélio e Lucilene Silva, essas experiências deságuam no palco em “O Colecionador de Brincadeiras”.
“A primeira vez que conheci a Lucilene foi em 2006, na Casa de Ensaio, quando ela veio para ministrar uma oficina. Ali tive meu primeiro contato mais profundo com o universo das brincadeiras tradicionais. Até então, conhecíamos apenas as músicas do repertório que ela desenvolvia em parceria com Lydia Hortélio, como ‘Abre Roda Tindolelé’ e ‘Bela Alícia’. Quando vi que aquelas músicas vinham acompanhadas de gestos, movimentos e formas próprias de brincar, algo mudou em mim”, relembrou Edu ao jornal O Estado.
Ao conhecer Lydia Hortélio pessoalmente, a visão do educador sobre o ensino da arte e da cultura pelas brincadeiras foi reformulada, o que possibilitou que ele se tornasse um pesquisador da cultura popular e das infâncias.
“‘O Colecionador de Brincadeiras’ nasce justamente desse percurso. Ele é resultado de anos de encontros, pesquisas e vivências que me permitiram mergulhar profundamente na cultura da infância e, finalmente, levar essa experiência para o palco. No espetáculo, Edu Brincante transforma sua trajetória de pesquisa e vivência com a cultura popular em uma experiência cênica sensível, musical e cheia de afeto.
“Escolhi aquilo que mais me emociona e que também desperta alegria nas crianças. Algumas dessas brincadeiras ganharam forma por meio de personagens em bonecos, o que tornou tudo ainda mais especial. Sempre imaginava como seriam essas figuras presentes nas cantigas, e isso me levou a colocá-las no palco. No espetáculo aparecem personagens como a Florista, a Senhora Dona Sancha e a Piaba, um peixe mágico e brincalhão”, explica.
Ao longo de aproximadamente 40 minutos, Edu costura música, narrativa e teatro de forma orgânica e brincante. Cantigas tradicionais, histórias populares e personagens surgem e se transformam em cena, embalados por ritmos que desenham a diversidade cultural do como baião, ciranda, coco e samba de roda. A criação dos bonecos foi feita em parceria com o bonequeiro Rafael Mariposa, de São Paulo, que abraçou o projeto.
“Brincar é urgente”
Em um tempo dominado por telas e tecnologia, o educador acredita que o espetáculo também aborda essa questão desafiadora, de forma poética, trazendo memórias das infâncias de antigamente.
“Hoje, muitas crianças vivem em apartamentos ou em espaços onde não podem brincar livremente, e acabam presas às telas desde muito cedo. Por isso, eu digo com convicção: brincar é urgente. A brincadeira é extremamente potente, ensina a criança a se relacionar, a ganhar e perder, a dividir, cooperar e entender o mundo. Acredito que uma criança que brinca se torna um adulto mais criativo, sensível e generoso. Talvez a falta dessas vivências também explique uma sociedade mais impaciente e desconectada”, Tanto crianças quanto adultos poderão interagir durante a apresentação, com objetivo de incentivar que as famílias resgatem a arte do brinca no dia-a-dia, dentro de suas casas. “O espetáculo traz justamente essa reflexão: brincar é maravilhoso e necessário em qualquer idade. O adulto também precisa brincar, porque isso torna a vida mais leve e alegre. É um convite para que as famílias cantem, contem histórias e vivam momentos juntas”.
Para todos
O espetáculo também circula pelas EMEIs (Escolas Municipais de Educação Infantil) de Campo Grande–MS, levando às escolas públicas da capital sul-mato-grossense uma experiência artística que reafirma o brincar como prática coletiva, educativa e essencial ao desenvolvimento humano.
Conforme Eduardo, sua trajetória na educação mostrou que Campo Grande ainda é um local carente de arte e cultura, principalmente para a primeira infância e em escolas públicas periféricas. “Em mais de dez anos de trabalho, foram poucas às vezes em que vi apresentações artísticas ou passeios culturais para as crianças. Por isso, sempre que desenvolvo um projeto, priorizo ações que envolvam tanto os alunos quanto os educadores, porque acredito que um professor encantado também consegue encantar”, explica.
“Acredito que o acesso à arte e à cultura é um direito desde a primeira infância. Nosso estado ainda avança lentamente em políticas públicas voltadas à primeira infância, então seguimos criando oportunidades e ampliando o acesso. Esse trabalho me emociona muito porque também fui aluno de escola pública. Sei o impacto que uma experiência cultural pode ter na vida de uma criança. Poder contribuir para que mais crianças tenham acesso à arte é uma honra e uma grande responsabilidade, complementa.
A primeira escola a receber a apresentação foi a Emeis Eloy Souza da Silva, no bairro Tijuca. Na quarta-feira (25), às Emeis Luzinete César, no Zé Pereira, e Clotilde Chaia, no Jardim Imá receberão o projeto. As instituições foram criteriosamente escolhidas com o intuito de democratizar o acesso à cultura e à arte, levando o teatro a locais raramente priorizados.
Já no dia 28/02 (sábado), ao lado da Trupe de músicos brincantes, formada por Érica Toledo, Gabi Kina, Filipe Barbosa e Júlia Mendes, Edu Brincante apresenta o resultado de toda essa trajetória e pesquisa no Sesc Teatro Prosa, a partir das 16h, com entrada gratuita, Ingressos via Sympla
O projeto De Roda em Roda conta com patrocínio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, da SETESC-MS e do Ministério da Cultura, por meio do edital PNAB 04/2025 – Concessão de Bolsas Culturais de Pesquisa, Intercâmbio Cultural e/ou Aprimoramento Artístico.
Por Carolina Rampi
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