Série de apresentações levam o público a refletir sobre questões femininas na sociedade
A partir de relatos e reflexões, a atriz Ligia Tristão Prieto trouxe para o palco do teatro o espetáculo ‘Invernáculos dos Sonhos’, um monólogo que revela inquietações de uma artista sobre questões que cercam o mundo das mulheres: violências, invisibilidade e abusos, com o questionamento sobre: como é possível construir um lugar seguro para que as mulheres possam criar e ainda receber um salário digno por sua criação e serem livres.
Em cena, câmeras pelo palco capturam e revelam as inquietações de uma mulher artista que vive em um território onde o arroba do boi vale muito mais que a vida de uma mulher. Entre confissão e manifesto, projeções trazem à cena os rostos de suas antecessoras, além de cartas trocadas com sua mãe ainda em vida, costurando passado e presente em um espetáculo íntimo que comemora os 25 anos de carreira da atriz.
Aviso ao público
Este espetáculo aborda temas sensíveis, que podem despertar gatilhos emocionais. Recomendamos que cada pessoa avalie seu bem-estar antes de assistir e se sinta livre para cuidar de si da forma que considerar necessária.
A apresentação será gravada como parte da própria encenação, sendo a captação de imagens e som um elemento integrante do espetáculo. Ao permanecer no espaço, o público autoriza, de forma gratuita, o uso de sua imagem e voz para fins de registro, documentação e divulgação da obra.
Problemática
“Invernáculo dos Sonhos” nasce de um processo em que a artista entende a criação como algo inseparável da própria vida. “Eu sempre trabalhei e acreditei que a criação é parte da gente. Eu crio a partir de mim, das histórias que me compõem, dos meus lugares de existência no mundo”.
A artista explica que o espetáculo é resultado de um percurso longo, que se adensa a partir da pesquisa acadêmica. Ela relata que, ao concluir essa etapa, foi possível avançar ainda mais na construção cênica. “Quando eu termino o mestrado, eu consigo mergulhar mais ainda na dramaturgia desse espetáculo e tomar essa coragem também de entrar em cena de uma forma mais exposta ainda”. Para ela, mesmo sendo um trabalho ficcional, há um nível intenso de entrega pessoal. “Porque o artista já se expõe, mas quando a gente faz uma autobiografia, embora ficcional, a gente está trazendo também lugares muito específicos. Então há uma exposição, mas com muito afeto, com muita pesquisa, com muito carinho, com muita orientação”.
O contexto social e econômico de Mato Grosso do Sul é diretamente relacionado no espetáculo. “Ano passado, o Mato Grosso do Sul teve o maior PIB do país, pela agropecuária. E também teve o maior índice de feminicídio no país. Então, é o estado que mais mata mulheres, mas é o estado que mais tem crescido com a rentabilidade a partir da agropecuária. Eu acho que a gente não pode ignorar esses dados, eu acho que é uma cultura estrutural mesmo, o que está sendo rentável para o Estado”.
Esse conflito aparece de forma direta na dramaturgia, ao tensionar o valor da arte, da criação e da vida feminina em um território marcado pelo agronegócio. “E aí o espetáculo traz esse questionamento de quanto custa uma poesia no estado que vive da agropecuária, quanto custa uma mulher artista, como é que se paga, como é que se pensa nesse valor financeiro de criar uma cultura, de compor uma cultura a partir de uma reflexão, de uma crítica e quanto vale isso financeiramente.” A artista ainda aponta exemplos que intensificam esse contraste. “O maior boi, o mais caro do país custou 54 milhões de reais, é o mais caro do mundo, na verdade. O boi mais caro do mundo é do Brasil, olha que doideira.” Para ela, esse desequilíbrio é central na obra. “Então, eu acho que tem um ponto aí que a gente precisa refletir, que eu trago isso bastante dentro do espetáculo”.
Da base ao topo
Para o jornal O Estado, Ligia descreve o teatro como um espaço atravessado por contradições profundas ao longo de sua trajetória. “O teatro foi um lugar muito desafiador, porque foi onde eu sofri muitos abusos, muitas violências”, afirma, lembrando que, no início, imaginava a arte como “um lugar seguro, sublime”. Com o tempo, percebeu que as dores não estavam apenas na linguagem artística, mas na estrutura que a sustenta. “Eu começo a entender que isso não tem a ver estritamente com o teatro, com o cinema, com a criação em si. Isso tem a ver com a estrutura que essas linguagens estão colocadas.”
A partir desse reconhecimento, ela passou a construir seus próprios espaços de proteção e criação. “Eu preciso compor abrigos, lugares de segurança dentro dessas linguagens de criação”, diz, ao relatar a escolha por trabalhar com pessoas que a respeitam, impor limites e afastar a lógica patriarcal dos processos criativos. Hoje, define essa relação de forma plural: “O teatro inicia como um lugar de guerra, de sobrevivência”, mas também se transforma. “Ele funciona como trincheira de guerra, como porto seguro, como lugar de resistência, como lugar de respiro, como lugar de enfrentamento”.
Trajetória
Com 25 anos de carreira, Ligia aponta o trabalho como um marco de consciência e posicionamento. “O que eu mais entendi é a importância da qualidade do tempo e o quanto as outras pessoas, a estrutura patriarcal, o lugar estrutural do território em que a gente vive atrapalham também essa criação”, afirma. Ela relembra um percurso marcado por limites impostos de fora para dentro: “Eu ouvi muitas coisas nesses 25 anos, como ‘a Lígia quer coisa demais’ ou ‘isso não vai dar certo’, e toda hora eu tinha que me perceber diminuindo a minha criação para caber dentro dessa estrutura que o Estado enxerga enquanto arte”. Hoje, esse movimento se inverte: “Eu não quero mais fazer isso. Aqui o espaço é da minha criação e ela é infinita”.
Segundo a artista, o espetáculo simboliza uma virada definitiva. “As pessoas podem não gostar do meu trabalho, a arte não é sobre gosto, mas não tem como falar que não há um trabalho construído”, diz, ressaltando que sua trajetória é feita de constância e autoria feminina: “Não tem como negar 25 anos de uma mulher que cria, escreve, compõe, entra em cena como atriz, diretora e dramaturga”. Ela afirma que o principal aprendizado foi “impor os meus limites para que a minha criação exista e se concretize” e destaca a importância das parcerias: “Outra coisa que eu aprendi foi estruturar com quem você caminha”. Em Invernáculo dos Sonhos, ela resume, “a gente tem uma equipe muito especial, muito carinhosa, que acredita no funcionamento da arte”.
Olhar para si
Ao falar sobre o cuidado consigo mesma durante o processo de criação de Invernáculo dos Sonhos, a artista destaca que todo o percurso foi atravessado por afeto e acolhimento. “Tudo foi muito olhado com carinho, com uma tentativa de acolhimento e não de gatilho em si. O que eu desejo com esses momentos é dizer: isso também aconteceu comigo, eu estou aqui também, e há vida depois de todas essas mortes”. Segundo ela, cada palavra foi construída com atenção redobrada, em um trabalho coletivo: “Nada foi pensado só por mim. Eu tive orientadora cênica, dramatúrgica e corporal, que foram essenciais para olhar essas cenas comigo”.
Ligia ainda afirma que a principal reflexão que deseja provocar no público está diretamente ligada ao fortalecimento da presença feminina nos espaços de criação. “A reflexão que eu desejo com esse espetáculo é que mais mulheres escrevam, criem, ocupem os lugares, os teatros, os espaços de criação, porque é um processo de reflexão, é um processo lento de tentar que a gente consiga existir enquanto criadoras”.
Serviço: O espetáculo estará em cartaz até o dia 6 de fevereiro de 2026, no Teatro Aracy Balabanian, às 20h. Reservas pelo link do sympla: