“Stalking é uma forma de violência psicológica e de controle”, alerta delegado
A perseguição insistente, silenciosa e muitas vezes disfarçada de cuidado ou insistência tem feito parte da realidade de muitas vítimas em Mato Grosso do Sul. Conhecido como stalking, o crime ainda é pouco reconhecido por quem sofre e, em muitos casos, só é identificado quando provoca impactos profundos na rotina, na saúde emocional e na sensação de segurança.
De acordo com dados da Sejusp (Secretaria de Justiça e Segurança Pública), ao longo de 2025 foram registrados 955 crimes de stalking no Estado. Em 2026, 24 casos foram registrados em janeiro, indicando que a prática segue presente e exige atenção.
Segundo o delegado Wellington de Oliveira, ouvidor-geral da Polícia Civil, o stalking precisa ser compreendido como um crime e não como comportamento aceitável. “Stalking não é insistência romântica. É perseguição repetida que tira a paz, a liberdade e a segurança da vítima”, afirma.
O delegado explica que a perseguição não se limita ao contato presencial. “Hoje, o stalking acontece tanto na rua quanto dentro do celular. Muitas vezes começa no ambiente digital e depois migra para o presencial”, destaca. Mensagens insistentes, ligações fora de hora, uso de perfis falsos, vigilância constante nas redes sociais e ameaças veladas fazem parte do padrão do crime.
De acordo com Wellington, o impacto na vida da vítima é significativo. “A pessoa muda horários, evita lugares, altera rotinas, reduz a vida social e passa a viver em estado permanente de alerta. Isso gera ansiedade, insônia e adoecimento emocional”, pontua. Para ele, é um erro tratar o crime apenas como “chateação”. “O stalking adoece, isola e pode ser o início de uma escalada para violências mais graves”.
Repetição é o principal sinal
Uma das principais dúvidas das vítimas é diferenciar stalking de outros comportamentos. Conforme o delegado, o que caracteriza o crime é a repetição contínua e a invasão da liberdade da vítima. “Quando o ‘não’ não é respeitado e a insistência continua de forma reiterada, deixa de ser incômodo e passa a ser crime”, explica.
O stalking está previsto no artigo 147-A do Código Penal e pode ocorrer independentemente de ameaça direta. “Não é exagero e não é mimimi. A lei existe porque esse comportamento pode crescer e se tornar ainda mais violento”, reforça.
Mulheres são as principais vítimas
Segundo a Polícia Civil, a maioria dos casos envolve mulheres, especialmente em contextos de término de relacionamento. “Muitos episódios estão ligados ao sentimento de posse, controle e à dificuldade de aceitar o fim da relação”, afirma Wellington. Em situações de violência doméstica, o stalking pode ser a continuidade da agressão. “Muda a forma, mas o controle permanece.”
As redes sociais e aplicativos ampliam esse cenário. “A internet virou um mapa da rotina. O agressor observa horários, locais e pessoas próximas, passando a agir como se tivesse direito sobre a vida da vítima”, explica.
Dificuldade em identificar e denunciar
Um dos maiores desafios é o reconhecimento do crime. “O stalking começa pequeno, quase invisível. Quando a vítima percebe, já está vivendo com medo”, observa o delegado. O receio de não ser levada a sério, a vergonha e o medo de retaliação fazem com que muitas pessoas demorem a procurar ajuda.
A orientação é observar sinais como mensagens repetidas após bloqueio, ligações constantes, perseguição física, criação de perfis falsos e pressão psicológica. “Se virou repetição, invasão e medo, é sinal de alerta”, resume.
Como denunciar
A Polícia Civil orienta que as vítimas preservem provas, como prints de mensagens, registros de chamadas, áudios, vídeos e links de perfis falsos. “A prova digital é essencial para responsabilizar o autor”, destaca Wellington.
A denúncia pode ser feita em qualquer delegacia. Em situações de risco iminente, a orientação é acionar o 190. Quando houver vínculo afetivo ou histórico de violência doméstica, isso deve ser informado no registro da ocorrência.
“O recado é claro: não normalize, não apague provas e procure ajuda o quanto antes. Stalking é violência psicológica, é controle e é crime”, conclui o delegado.
Por Geane Beserra
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