Presidente do PRD-MS defende um projeto com identidade própria a nível regional
A leitura feita pelo ex-senador e presidente estadual do PRD-MS (Partido Renovação Democrática em Mato Grosso do Sul), Delcídio do Amaral, sobre o cenário nacional e seus reflexos no plano regional parte de um ponto central. A estratégia do PSD (Partido Social Democrático), que hoje abriga três nomes colocados como presidenciáveis,o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior do Paraná, e Eduardo Leite do Rio Grande do Sul, gera insegurança política e tende a produzir efeitos diretos nas alianças estaduais.
Delcídio avalia com desconfiança o movimento do PSD ao tentar se consolidar como alternativa nacional de centro-direita mantendo, ao mesmo tempo, arranjos regionais, muitas vezes, contraditórios. Para ele, há uma incongruência estrutural quando um partido apresenta um candidato à Presidência da República, mas permite que suas bases estaduais sigam caminhos distintos, inclusive apoiando adversários nacionais.
“Como é que você lança um candidato majoritário quando, por exemplo, um Estado como a Bahia está com o PT? Em Minas Gerais também. Quer dizer, eu vou ser candidato ou vou ser general e não tenho soldado?”, questiona. Na avaliação do ex-senador, esse modelo fragiliza qualquer projeto presidencial consistente. “Você vai ter um candidato majoritário e os Estados valem o que for característico de cada um. É um movimento muito esquisito”, completa.
Na prática, Delcídio aponta que o discurso de que “os acordos estaduais já consolidados vão prevalecer” desmonta a lógica de uma candidatura nacional competitiva. Para ele, o cenário sugere que muitos desses presidenciáveis, na verdade, estariam mais atentos às próprias disputas regionais do que a um projeto nacional de poder.
Essa leitura se conecta a uma hipótese levantada pelo próprio Delcídio. “Será que, no final das contas, o interesse não é fazer bancada? Mais fundo eleitoral, mais fundo partidário, mais tempo de televisão. É muito estranho esse movimento”, diz. Na sua análise, a proliferação de pré-candidaturas presidenciais sem força nacional pode funcionar como instrumento de fortalecimento partidário no Congresso, e não necessariamente como caminho real para o Planalto.
Reflexos em Mato Grosso do Sul
Esse ambiente nacional impacta diretamente o xadrez político de Mato Grosso do Sul. Diante da instabilidade das grandes legendas, o PRD trabalha para estruturar uma aliança regional de oposição, com identidade própria, fora das ambiguidades do cenário nacional. Nesse contexto, ganha centralidade o diálogo com o Democracia Cristã, que tem Beto Figueiró como pré-candidato ao governo do Estado.
Delcídio reconhece legitimidade na pré-candidatura de Figueiró. “O Beto foi oposição, foi vice quando disputaram com o Reinaldo, depois foi candidato nas últimas eleições municipais contra esse sistema que está aí. Ele construiu uma história. Tem absoluta legitimidade para pleitear uma candidatura majoritária ao governo do Estado”, afirma. Para o dirigente do PRD, trata-se de um nome que dialoga com o eleitorado insatisfeito com o atual arranjo político estadual.
Ao mesmo tempo, Delcídio deixa claro que esse processo ainda será amplamente discutido. “Nós vamos discutir isso eternamente, porque política é construção”, pontua. A lógica, segundo ele, é buscar uma candidatura única no campo da oposição, capaz de aglutinar forças e evitar dispersão eleitoral. “Nós não vamos lançar candidatura de uma cor aqui e outra ali. Estamos juntos. Isso acontece sempre”, resume.
Outro elemento decisivo nesse tabuleiro é a federação partidária entre o PRD e o Solidariedade, homologada pelo Tribunal Superior Eleitoral no fim do ano passado. Delcídio destaca que a formalização tardia da federação dificultou um debate prévio mais aprofundado. “Não deu nem tempo de organizar uma discussão anterior, porque a federação só foi formalizada no final do ano”, explica.
A federação impõe decisões conjuntas e uma estratégia unificada, inclusive no plano estadual. “A federação funciona a partir da decisão nacional de homologação, mas olhando para a realidade local. Estamos juntos, com unidade”, afirma. Segundo ele, o foco das direções nacionais está fortemente ligado à eleição de deputados federais, já que é isso que define acesso a fundo eleitoral, fundo partidário e tempo de televisão. Ainda assim, o compromisso, no caso de Mato Grosso do Sul, é lançar chapas completas, mantendo protagonismo no debate político.
Nesse cenário, a avaliação de Delcídio é pragmática e crítica. Enquanto grandes partidos nacionais operam com múltiplas pré-candidaturas presidenciais e alianças estaduais desconectadas, o risco é transformar a eleição nacional em um jogo de conveniência. Para ele, isso abre espaço para que forças regionais, como a aliança entre PRD, Democracia Cristã e Solidariedade, busquem ocupar um espaço político mais claro, com discurso definido e oposição estruturada.
Por Sarah Chaves e Brunna Paula
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