Pode Falar o Local? Manoel de Barros e a memória

Josemar de Campos Maciel - Foto: divulgação
Josemar de Campos Maciel - Foto: divulgação

Gayatri Spivak formulou um dia a pergunta “pode o subalterno falar?”. Hoje o Pantanal de Manoel de Barros responde, com um movimento poético e radicalmente ontológico. Deslocando a questão para “pode falar o local?”, confrontamos a hegemonia de teias de poder que tentam definir o que é considerado “Real”. Mas a realidade possui um traço radical de construtibilidade sócio-simbólica, como sugerem as intuições da fenomenologia social e da hermenêutica. O real não é um dado bruto, mas um território mantido por atos cotidianos de linguagem, trançados em possibilidades de pertencimento. O “local”, encarnado nas figuras do estrangeiro e do que Manoel ilustra como “Bugre”, e no seu léxico essa expressão refere-se ao pantaneiro típico, com múltiplos pertencimentos e ao mesmo tempo marginal e criativo, representa aquele que é tradicionalmente “falado”, designado, posicionado pelo outro: pelo Estado, pela ciência ou pelo memorialismo oficial. Não é a caricatura do silenciamento sobre os povos indígenas, mas a potência daquele que, lançado às margens, desenvolve uma visão privilegiada sobre os escombros da civilização, que recria. Manoel de Barros, na trilogia “Memórias Inventadas”, opera uma subversão dialética: ultrapassa o registro factual e aponta para a soberania da invenção. Para ele, “tudo o que não invento é falso” porque a verdade do sujeito local não cabe na moldura dos fatos impostos por centros distantes de poder.

Reivindicar a fala do “local” desvela a urgência ética de participar dos processos de construção do tecido social e econômico. Na jovem e instável democracia brasileira, sedenta por um campo de transparência e participação, a enunciação do local é um gesto de cidadania. Escolher representantes, participar da vida pública, exige que o sujeito se reconheça como autor de sua realidade. Para que essa participação seja efetiva, é imperativo “inventar” a nossa memória, como ato de imaginação política que preenche os vazios da história oficial. É urgente recuperarmos o processo da “escovação de ossos”. O cidadão-poeta mergulha na solidão existencial para encontrar suas primeiras palavras que, mesmo dispersas em múltiplas diásporas, constroem tendas de pertencimento, no deserto do silenciamento. Essa espécie de arqueopoesia, a um tempo local e universal, é um exercício de busca que repropõe o “inútil” como fundamento de nova enunciação. A memória deixa de ser um depósito de arquivos para tornar-se uma ferramenta de construção do presente.

A importância da memória em Barros reside na capacidade de vinculação cultural (como em Jan Assmann) e no reconhecimento ético do si-mesmo (como em Paul Ricœur). Ao reivindicar seu direito à metáfora e à reinvenção de sua trajetória, o “local” deixa de ser um obscuro objeto da economia para tornar-se sujeito político ativo. A memória inventada desarticula o trauma da invisibilidade e fomenta espaços de transparência. Onde há palavra autêntica, mingua o espaço dos podres poderes.

Sim, o “local” deve falar e operar uma “desgramatização” das hierarquias impostas. A saúde coletiva, a subjetivação e a democracia encontram na poética um dispositivo clínico e social: a compreensão de que o pertencimento e o acesso a teias de poder de enunciação são direitos que se conquistam ao narrarmos o mundo desde nossa própria “infância” criativa. Inventar a memória é o ato mais radical de realismo de que uma sociedade em construção pode dispor.

 

Josemar de Campos Maciel é É Doutor em Psicologia (PUC-Campinas) e professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local da UCDB. E-mail: maciel50334@yahoo.com.br

Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.

 

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