Projeto de artista campo-grandense traz clássico de Ney Matogrosso em cerâmica e stop motion
“O gato preto cruzou a estrada/Passou por debaixo da escada/E, lá no fundo azul, na noite da floresta/A Lua iluminou a dança, a roda, a festa/ Vira, vira, vira homem, vira, vira lobisomem”. Em 1973, João Ricardo e Luhli compuseram a canção ‘O Vira’, interpretada pelo grupo Secos e Molhados e perpetuada por Ney Matogrosso durante sua carreira solo. Foi a história clássica da letra que inspirou a artista campo-grandense Marina Torrecilha um clipe para a música, utilizando da cerâmica, uma de suas especialidades e o stop motion.
Fã do artista, Marina considera Ney como uma ‘entidade’, que evoca e performa um espírito brasileiro mitológico, que “seduz, encanta e desafia”, conquistando antes de ser questionado. “É hipnotizante assisti-lo. Um grande ícone que mexe com o meu imaginário desde a infância. Para mim, ele é uma mitologia folclórica brasileira”.

Fotos: Marina Torrecilha/Arquivo pessoal
Processo
Com essa bagagem ‘folclórica’ trazida por Ney, a artista escolheu uma música que trouxesse uma riqueza cultural brasileira, como ‘O Vira’. “Comecei fazendo o storyboard [espécie de roteiro visual], ouvindo e criando as cenas, ilustrando no computador… depois que entendi todos os elementos que queria, e os quadros que faria, coloquei a mão na massa e fui esculpindo o cenário e os personagens”, explicou ao Jornal O Estado.
O destaque é o pequeno Ney Matogrosso, feito com sua clássica maquiagem de apresentações, que não se transforma em lobisomem, como na música, e sim em um lobo-guará. Outros personagens como saci e até uma fada com toques indígenas foram incorporados na criação.
“Fui testando aqui, treinando ali, vendo como tudo poderia ser, pensei como seria o cenário. Seria de noite, com a lua cheia, já que há toda essa atmosfera mística da floresta durante a noite, com tons mais fechados como azul e verde”, explicou. “Criei também o nosso saci e uma fada indígena, que foge do senso comum europeu e traz a nossa identidade; a partir disso, fui me dando liberdade para fazer, por exemplo, o lobisomem ser um lobo-guará e o homem que se transforma é o Ney, que é uma grande inspiração na minha vida”, complementa.

Fotos: Marina Torrecilha/Arquivo pessoal
Explorando novos caminhos
Marina é responsável pela marca Copa de Barro, onde traz inspirações da fauna brasileira para diversos itens de cerâmica, como xícaras, copos e até um jogo de xadrez com capivaras, que viralizou nas redes sociais. Atuando desde 2020 como ceramista, cada personagem de seus trabalhos é desenvolvido para dar a impressão de movimento, mas o stop motion sempre foi uma vontade.
“Desde que entrei na cerâmica, sempre pensava como um material tão estático, utilizado para decorar, para estar em uma mesa, ou estante, poderia ser fluido. Como posso fazer uma criação em cima de algo tão frágil?”, questionava.
Mesmo com a experiência na argila, o vídeo de ‘O Vira’ foi um desafio para ela, já que a cerâmica, apesar de resistente, pode quebrar se cair ou bater em alguma superfície. “Levei quatro dias fazendo as modelagens e um dia para as pinturas. Depois fiz as queimas de baixa e alta temperatura, montei o cenário e fui gravando; as gravações duraram dois dias, mais dois para editar tudo”.
“Foi dando certo”, conta. “Tinha hora que um personagem caia e eu ia lá colar se quebrasse alguma coisa. Tudo foi se encaixando. Eu fui tendo mais noção de espaço também, colocando uma peça aqui, outra ali, mais distante. Depois que gravei muitas cenas, abri meu editor, adicionei a música conforme as cenas e ia contando a história da noite, do homem virando lobisomem”.
O processo pode ter sido trabalhoso, mas para Marina foi sinônimo de alegria. “Me diverti muito, dava risadas, conversava com o pequeno Ney enquanto movia as peças… Via eles vivos, ali, interagindo com o cenário e eu conseguindo criar uma identidade de movimento com a cerâmica”, revela. “Ainda me falta muita familiaridade, e apesar de ser amador, gostei bastante do resultado. Se me prendesse a perfeccionismo, nunca postaria nas redes”.
Marina define seu trabalho como transformador e importante para jogar luz a questões ambientais. “Hoje eu trago a identidade das inspirações da nossa terra na minha arte. Os seres elementais, os mistérios desse mundo, a força de criaturas espirituais que lutam e guiam todos nós transformando a nossa natureza. Acredito que a Arte transforma, e através disso busco sensibilizar as pessoas para a intenção da preservação das florestas”.
Recepção
O trabalho de Marina com ‘O Vira’ já rendeu frutos. Com mais de 1.700 curtidas e 400, o instagram oficial do Secos e Molhados, administrado por João Ricardo, repostou o vídeo, bem como o próprio Ney Matogrosso, em seu perfil pessoal.
A canção ‘O Vira’ é um dos maiores sucessos do grupo ao lado de “Sangue Latino” e “Rosa de Hiroshima”. A letra alude às tradições portuguesas como a dança-típica Vira (que em Portugal é mais interpretado por grupos de folclore, conhecidos como Ranchos, da Região do Minho). Causou um inesperado e gigantesco sucesso junto ao público infantil, o que também ajudou a alavancar as vendas do álbum.
Por Carolina Rampi
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