Assunto em alta no momento, as canetas emagrecedoras têm sido pauta recorrente em noticiários de todo o país. Na última quarta-feira (21), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determinou a proibição da comercialização, distribuição, fabricação, importação, propaganda e uso dos medicamentos à base de tirzepatida, das marcas Synedica e TG. A medida vale também para a retratativa, de todas as marcas e lotes.
A partir de novembro de 2025, a importação das canetas emagrecedoras no Brasil foi proibida pela Anvisa, após um aumento nas vendas e nos anúncios irregulares dos medicamentos pela internet, vindos principalmente do Paraguai. Atualmente, o produto só pode ser comercializado no país com prescrição médica. Em junho do ano passado, o órgão também passou a exigir a retenção das receitas de medicamentos agonistas de GLP-1 por farmácias e drogarias.
Conforme noticiado anteriormente pelo O Estado, em Mato Grosso do Sul, a fiscalização do transporte irregular das canetas foi reforçada por equipes do DOF (Departamento de Operações de Fronteira) e do BPMRv (Batalhão de Polícia Militar Rodoviária), a fim de impedir a entrada ilegal no Brasil pelas fronteiras do Estado. “Somente na primeira quinzena de 2026, 189 caixas foram retiradas de circulação nas rodovias estaduais, evidenciando a continuidade e a intensidade dessa modalidade criminosa”, comunicou o DOF por meio do site do Governo do Estado.
Embora as ações de combate, a utilização dos medicamentos para emagrecer continua acontecendo. É o que relatam pessoas no Centro de Campo Grande. Genilce Moraes Dias, cabeleireira de 36 anos, conhece algumas pessoas que fazem uso das conhecidas “canetas emagrecedoras do Paraguai”. “Eu tenho clientes que usam, né? Tem aquelas que foram ao médico e fazem o tratamento certinho, e outras que eu não sei nem como conseguem”, relata.
Sem saber exatamente como o contrabando acontece, ela acredita que os produtos vêm de Ponta Porã e são repassados às clientes por meio de um fornecedor e que, para ela, “burlar o sistema” não é segredo. “Eu não usaria, mas, se quisesse, eu imagino onde conseguir.”
Comum também no ciclo de amizades de César Nogueira, empresário de 58 anos, as canetas emagrecedoras não parecem ser de difícil acesso. César relata que, poucos dias atrás, estava em um aniversário e ouviu quatro mulheres conhecidas comentarem sobre o uso. Além disso, afirma que possui alguns amigos que tinham sobrepeso e viram nas canetas uma solução. Para ele, os colegas estão mais interessados no baixo custo das importadas do que preocupados com questões de saúde.
O empresário diz que, em conversas casuais, os relatos são sinceros: muitos compram pelas redes sociais, como Instagram, e em grupos de WhatsApp e Facebook, e que as “vindas do Paraguai” são muito mais baratas, sendo mais atrativas do que as comercializadas legalmente no Brasil. César relata até mesmo o que ouviu sobre o contrabando. “Eles trazem dentro de garrafas de tereré. Não é segredo nenhum.”
Já uma cozinheira de 58 anos, que preferiu não se identificar, conhece outra realidade: cerca de cinco pessoas de seu convívio próximo utilizam as canetas emagrecedoras. No entanto, ela comenta que boa parte delas faz uso com receita e acompanhamento médico, além de levar em consideração a qualidade do que estão injetando no próprio organismo. “A maioria que eu conheço toma Mounjaro e paga mais de R$ 1.000 por mês”, finaliza.
Custo favorece a busca clandestina
É o que explica uma farmacêutica que também preferiu não se identificar. À reportagem, a profissional utilizou o exemplo de uma caixa com quatro aplicações, que custa R$ 1.284 na farmácia onde trabalha. Para ela, o valor extrapola o poder de consumo de muitos brasileiros, o que faz com que vários procurem alternativas ilegais, em busca de menores custos. Ela afirma ainda que quem compra com receita geralmente não leva mais do que uma caixa.
Na experiência profissional da farmacêutica nos últimos meses, ela conta que não é incomum atender pessoas que procuram os medicamentos sem receita. Por telefone, a situação é ainda pior: pedem informações como valores, forma de aplicação e para que servem, além de compararem com os preços das clandestinas. A profissional faz um alerta para esse tipo de pensamento: “O mais preocupante, no meu ponto de vista como farmacêutica, é que as pessoas usam, para emagrecer, algo sem saber a procedência. Não sabemos se, a longo prazo, isso pode causar problemas”, desabafa.
Um alerta feito pela SES (Secretaria Estadual de Saúde) revela que a utilização desse tipo de medicamento sem prescrição, sem registro na Anvisa e comercializado por canais informais representa risco grave à saúde, incluindo infecções e intoxicações.
Por Maria Gabriela Arcanjo