Expansão sem planejamento forma médicos generalistas e pressiona sistema de saúde em MS

Foto: reprodução Uniderp
Foto: reprodução Uniderp

Excesso de vagas, poucas residências e decisão do MEC expõem gargalos da formação médica no Estado

O crescimento acelerado dos cursos de Medicina no Brasil começa a produzir efeitos visíveis no mercado de trabalho e no sistema de saúde, especialmente em estados como Mato Grosso do Sul. O aumento expressivo no número de vagas na graduação, sem expansão proporcional da residência médica e dos campos de prática, tem resultado na formação de um contingente cada vez maior de médicos generalistas lançados diretamente no mercado.

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Estado, o presidente da AEMED-MS (Associação dos Estudantes de Medicina de Mato Grosso do Sul), João Gabriel Pradebon, acadêmico do 7º semestre da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), avalia que esse descompasso ajuda a explicar o endurecimento dos critérios adotados pelo MEC (Ministério da Educação) para a abertura de novos cursos.

“Hoje, são poucos os que conseguem entrar em uma especialidade por meio da residência médica, já que o número de vagas é bastante reduzido. Isso gera um grande número de médicos generalistas, muitos deles formados em cursos com estrutura limitada”, afirma.

Segundo ele, a expansão ocorreu sem planejamento integrado entre educação e saúde. “O problema não é apenas formar mais médicos, mas garantir que eles tenham vivência prática, supervisão adequada e caminhos de especialização”, completa.

Mercado saturado e formação desigual
Para a AEMED-MS, o excesso de vagas na graduação não se traduziu em melhoria da assistência à população. Ao contrário, aprofundou desigualdades na formação e ampliou a concorrência por espaços já escassos tanto no SUS (Sistema Único de Saúde) quanto na rede privada.

“Há cursos com dificuldade de acesso a hospitais conveniados, clínicas-escola insuficientes e número reduzido de docentes. Isso impacta diretamente a formação e cria profissionais com níveis muito diferentes de preparo”, avalia Pradebon.

O presidente da entidade destaca que, mesmo em cursos bem avaliados, o desempenho médio acaba sendo afetado por problemas estruturais. “O Enamed deixa isso mais evidente ao comparar desempenhos e mostrar onde estão os gargalos”, observa.

Decisão do MEC reflete novo cenário
A recente decisão do MEC de indeferir a abertura de um curso de Medicina em Campo Grande reforça esse movimento de contenção. Embora a instituição tenha recebido Conceito Institucional 4 na avaliação do Inep) (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o pedido foi negado por ausência de relevância e necessidade social.

O Ministério considerou que Campo Grande possui 3,92 médicos por mil habitantes, índice superior ao parâmetro nacional de 3,73 médicos por mil habitantes, além de não integrar as regiões de saúde priorizadas pelo Programa Mais Médicos.

Para a AEMED-MS, o veto evidencia uma mudança de postura do órgão regulador. “O MEC começa a olhar não só para a estrutura do curso, mas para o impacto real da abertura de novas vagas no sistema de saúde e no mercado de trabalho”, avalia Pradebon.

Pressão sobre o SUS e residência médica
Outro efeito direto do excesso de formandos é a pressão sobre o SUS, que absorve grande parte dos médicos recém-formados. Sem residência ou especialização, muitos ingressam diretamente na atenção básica e em plantões hospitalares.

“Isso não significa que esses profissionais sejam incapazes, mas que muitas vezes entram no sistema sem a formação prática adequada. É um risco que precisa ser debatido”, afirma o presidente da AEMED-MS.

Segundo ele, a ampliação das vagas de residência médica deveria caminhar de forma articulada com a graduação. “Sem isso, o sistema fica desequilibrado”, pontua.

Sinal de alerta
Para a entidade estudantil, decisões como a do MEC e os resultados do Enamed devem servir como sinal de alerta para políticas públicas mais responsáveis. “Planejamento, fiscalização e avaliação contínua precisam caminhar juntos. Do contrário, o problema apenas se desloca da sala de aula para o atendimento à população”, conclui Pradebon.

A reportagem entrou em contato com a assessoria do grupo educacional responsável pelo pedido de abertura do curso para saber se haverá recurso contra a decisão do MEC e aguarda retorno.

Endividamento afasta estudantes da universidade em MS
Mato Grosso do Sul tem mais de 71 mil estudantes com dívidas ativas junto a instituições de ensino superior, e a inadimplência já afastou quase metade deles da sala de aula. Pesquisa divulgada pela Serasa nesta segunda-feira (26) revela que 48% dos universitários endividados no Estado trancaram o curso por não conseguirem manter o pagamento das mensalidades.

O levantamento, realizado em parceria com o Instituto Opinion Box, ouviu 936 universitários de todo o país entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Os dados mostram que o impacto financeiro ultrapassa o atraso nos boletos e compromete diretamente a permanência e o desempenho acadêmico.

Entre os entrevistados, 66% afirmaram ter deixado de comprar itens básicos, como alimentação, transporte e contas essenciais, para tentar manter o pagamento da mensalidade. Outros 26% relataram dificuldade de concentração nas aulas, associando o baixo rendimento à preocupação constante com as dívidas.

A inadimplência, segundo a pesquisa, costuma se prolongar. Em 61% dos casos, as dívidas com universidades estão em aberto há mais de um ano, sendo que 18% ultrapassam cinco anos. Na maioria das situações, o valor devido não passa de R$ 5 mil, o que indica dificuldade de negociação mesmo em débitos considerados baixos.

Entre os principais motivos para o endividamento estão desemprego (28%), necessidade de priorizar outras contas (21%), redução de renda (10%) e desorganização financeira (9%).

Renegociação em MS
No Estado, estão disponíveis 186.920 ofertas de renegociação voltadas a dívidas estudantis, com descontos que podem chegar a 90%, conforme a Serasa. As condições fazem parte das ações do programa Serasa Limpa Nome.

Mesmo diante das dificuldades, 57% dos estudantes afirmam que pretendem retomar os estudos ainda em 2026, caso consigam regularizar a situação financeira.

Formação fora do país e desafios no retorno ao Brasil
A médica Isabella Castello, formada na Universidade Del Pacífico, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, relata que a escolha pela graduação fora do Brasil foi motivada principalmente pelo custo.

“Foi uma opção mais em conta do que todas as faculdades do Brasil, e com certeza do Mato Grosso do Sul, que é uma das mais caras. Eu também não queria ficar fazendo cursinho, parar um ano para isso”, afirma.

Segundo ela, a formação teve pontos positivos, mas deixou lacunas importantes. “Foi uma formação boa, mas senti muita falta da parte de sistemas e do funcionamento do trabalho no Brasil. Lá é tudo muito manual. Quando a gente chega aqui, essa dificuldade aparece”, relata.

Atuando atualmente no SUS, Isabella afirma que o mercado de trabalho está cada vez mais difícil. “Tem oportunidade de emprego, mas a profissão está desvalorizada. O salário está cada vez menor, com mais exigências”, diz.

Ela conta que passou nas duas fases do Revalida logo na primeira tentativa e concluiu a pós-graduação em Medicina de Família e Comunidade pelo programa Médicos pelo Brasil. Ainda assim, relata frustração com o cenário profissional. “Mesmo com dedicação, não vejo o mercado bom. A valorização profissional está bem ruim”, conclui.

Por Suelen Morales

 

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