Mostra Preta Multidisciplinar reúne arte, formação e afeto em Campo Grande e se despede com programação que fortalece narrativas negras e indígenas do Centro-Oeste
A Casa de Cultura de Campo Grande respirou outras temporalidades nas últimas semanas. Entre imagens, sons, corpos em movimento e palavras carregadas de memória, o espaço tornou-se território de encontro para quem atravessou suas portas. Mais de duzentas e cinquenta pessoas passaram por ali, não apenas como visitantes, mas como parte viva de um processo que celebrou a permanência de existências negras e indígenas no coração da cidade.
O projeto, concebido por Lua Maria e Mariane Lopes, não se limitou a expor obras. Ele instaurou convivências. Cada atividade foi um gesto de retomada, como se o lugar se transformasse, dia após dia, em um abrigo simbólico onde arte e ancestralidade caminharam juntas. A dança abriu caminhos para o corpo lembrar o que sabe, o cinema ocupou a tela com histórias vindas do Centro-Oeste e a literatura encontrou terreno fértil para afirmar o afeto como força coletiva e política.
Agora, aproximando-se do encerramento, a experiência se estende para além da contemplação. Uma aula on-line propõe refletir sobre os percursos do audiovisual negro e indígena, compartilhando estratégias de circulação e sobrevivência dentro de um mercado historicamente excludente. Em outro momento, o diálogo se aprofunda ao colocar o amor no centro da conversa, não como sentimento abstrato, mas como prática ancestral de enfrentamento, cuidado e construção de mundos possíveis.
Programação
A programação de encerramento do projeto acontece em janeiro de 2026 e reúne ações formativas, debates e um encontro cultural aberto ao público em Campo Grande. A iniciativa marca o fechamento de uma proposta voltada à valorização das produções negras e indígenas, com atividades realizadas na Casa de Cultura e em formato on-line.
No dia 13 de janeiro, às 19 horas, será realizada uma masterclass on-line sobre distribuição audiovisual, ministrada por Rafael Nzinga, diretor da produtora Cine Diáspora, da plataforma TodesPlay e da UIRÀ Distribuidora. Com 14 anos de experiência e reconhecimento internacional, o convidado abordará estratégias de circulação de obras e caminhos para o fortalecimento do audiovisual negro e indígena.
A programação segue no dia 15 de janeiro, das 19 às 21 horas, com a roda de conversa “Amor é político”, conduzida pela antropóloga e pesquisadora Iara Custódio. O encontro propõe discutir o afeto como prática política, relacionando ancestralidade, relações não normativas e enfrentamento a estruturas históricas de controle, com acessibilidade em Libras.
O encerramento oficial acontece no dia 17 de janeiro, das 8h30 às 11 horas, no pátio da Casa de Cultura, com um café da manhã cultural ao som da DJ Lady Afroo. A exposição de artes visuais segue aberta ao público até sábado, com visitação gratuita de segunda a sexta-feira, das 9 às 18 horas, e aos sábados, das 9 ao meio-dia, na Casa de Cultura, localizada na Avenida Afonso Pena, nº 2270, no centro da Capital.
A parceria entre a Mostra Preta Multidisciplinar e a plataforma TodesPlay amplia o alcance das produções selecionadas nesta edição, conectando realizadores locais a uma rede nacional de exibição. A articulação foi construída por meio da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) e, segundo a cineasta Lua Maria para o Jornal O Estado, uma das idealizadoras do projeto, reforça o compromisso da Mostra com a visibilidade de obras realizadas por pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+.
“Eu e a Mariane somos associadas e atuamos como realizadoras de audiovisual aqui no Estado. Essa plataforma é muito importante porque amplia a visibilidade nacional das produções, é acessível, gratuita e reúne obras feitas por pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+. É uma plataforma de nós para nós”.
Dando continuidade à programação formativa da Mostra Preta Multidisciplinar, o projeto também promove uma Masterclass de Distribuição Audiovisual com Rafael Ferreira, diretor da produtora Cine Diáspora e da plataforma TodesPlay.
A atividade aprofunda o debate sobre circulação de filmes e acesso ao público, fortalecendo as trajetórias de cineastas ao apresentar estratégias possíveis de distribuição nacional, especialmente para produções independentes e realizadas por sujeitos historicamente dissidentes no audiovisual.
“A TodesPlay não é só uma plataforma de preservação, ela também é de distribuição audiovisual, e os filmes da Mostra Preta que estarão lá vão circular nacionalmente de forma gratuita. Na masterclass, as pessoas podem esperar uma formação com linguagem simples, acessível, mas também muito política e afetiva, com essas trocas que o audiovisual de guerrilha traz. É uma formação online, gratuita, aberta para pessoas de outras regiões “, conta.
Legado da Amostra
Ao chegar ao encerramento da Mostra Preta Multidisciplinar, a sensação de grandiosidade e gratificação se fez presente para as idealizadoras do projeto. Para Lua Maria, a importância vai além do número de visitantes, que ultrapassou 250 na exposição visual: trata-se de mobilizar diferentes linguagens artísticas e criar espaços de troca e expressão.
“Chegar a esse encerramento foi algo muito grandioso e gratificante. Para nós, enquanto produtoras e artistas, foi extremamente importante conseguir mobilizar tantas pessoas e, principalmente, articular diferentes linguagens artísticas. A Mostra Preta cumpriu, nesta edição, o seu papel de ser realmente multidisciplinar. Transitamos pelas artes visuais, pela literatura, pela dança e pelo audiovisual, criando diferentes formas de expressão, criação e troca”, destaca Lua.
Para a idealizadora, a Mostra Preta Multidisciplinar se tornou um espaço de materialização de ideias e práticas culturais.Segundo ela, a mostra reuniu em Campo Grande profissionais de diferentes áreas e linguagens que muitas vezes não dialogam entre si, promovendo conversas e conexões valiosas.
“Essa experiência tem sido um espaço de materialização. Conseguimos reunir artistas e agentes culturais de diferentes áreas, que muitas vezes não dialogam entre si, e promover trocas importantes. Ver essa convergência acontecer na Mostra Preta é uma grande realização e reforça nosso desejo de continuar fortalecendo o movimento multidisciplinar em Campo Grande nos próximos anos”.
Serviço: O encerramento da Mostra Preta Multidisciplinar ocorre na Casa de Cultura, localizada na Avenida Afonso Pena, 2270, no centro de Campo Grande. A exposição pode ser visitada de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, e aos sábados, das 9h ao meio-dia. A programação de despedida inclui um café da manhã cultural no dia 17 de janeiro, às 8h30.
Amanda Ferreira
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