Bloco celebra com desfiles na Esplanada Ferroviária e programação especial ao longo do ano
O Carnaval de Campo Grande em 2026 terá um significado especial: um dos blocos mais emblemáticos da cidade entra em clima de celebração ao completar 20 anos de história, marcando duas décadas de resistência, alegria e valorização da cultura popular nas ruas da Capital.
A celebração dos 20 anos será o eixo central das atividades do Cordão Valu em 2026, marcando presença nos desfiles de Carnaval nos dias 14, sábado, e 17, terça-feira, de fevereiro, na Esplanada Ferroviária. Além das apresentações carnavalescas, o aniversário será lembrado ao longo de todo o ano, com ações especiais que se estenderão até dezembro, quando a trajetória iniciada em 2006 será oficialmente comemorada.
A história do bloco começa no início dos anos 2000, a partir de encontros culturais promovidos em um bar que reunia artistas, pensadores e amantes do samba. Desse convívio nasceu a ideia de criar um movimento que recuperasse o espírito do carnaval de rua em Campo Grande, valorizando a música brasileira e a ocupação dos espaços públicos. A primeira saída oficial aconteceu no Carnaval seguinte à fundação, de forma simples e espontânea, reunindo um pequeno grupo de foliões acompanhados por uma formação musical reduzida.
Com o passar dos anos, o projeto ganhou força, ampliou seu público e se transformou em um dos principais símbolos da festa popular na cidade. Hoje, o bloco mobiliza milhares de pessoas, influencia novas iniciativas culturais e ajudou a abrir caminhos para outros coletivos independentes que surgiram inspirados por essa experiência.
20 anos de história
Ao completar 20 anos, o Cordão Valu revisita passagens que ajudaram a consolidar o bloco como referência do carnaval de rua em Campo Grande. Em entrevista ao Jornal O Estado, a idealizadora Silvana Valu destaca o primeiro desfile como um marco da trajetória, ressaltando a participação espontânea dos foliões, o envolvimento da comunidade ao longo do percurso e os gestos simbólicos que revelaram, desde o início, a dimensão afetiva e coletiva do movimento.
“Relembrar esses 20 anos é muito emocionante, mas o primeiro desfile é o que mais me marca. Saímos do Bar Valu até a Esplanada Ferroviária e ver as pessoas fantasiadas, a banda puxando o cortejo e os moradores jogando água nos foliões foi inesquecível. Quando chegamos ao Zé Carioca, eu e meu marido choramos de emoção. A bênção do padre da Igreja Dom Bosco também foi um momento simbólico, que mostrou que o Cordão Valu já nascia como algo maior, um movimento comunitário e afetivo”.
O tema “Cordão Valu 20 Anos” orienta a proposta do bloco para o Carnaval de 2026, que aposta na valorização da memória afetiva construída ao longo do tempo e no fortalecimento do vínculo com a cidade e com o público. A programação prevê ações, apresentações especiais, homenagens e surpresas pensadas para dialogar com a trajetória do grupo e com as pessoas que ajudaram a consolidar o Cordão como referência do carnaval de rua.
“Esse tema é, antes de tudo, uma celebração do que construímos juntos. A programação está sendo pensada com muito cuidado e respeito por essa história, mas sem perder de vista que quem faz a festa é o folião. São as fantasias, a ocupação das ruas e o envolvimento espontâneo das pessoas que tornam cada desfile único. O Cordão Valu é um carnaval de participação, e esses 20 anos pertencem a todo mundo que já cantou, dançou e viveu essa experiência com a gente”, explica Silvana.
Ocupar espaços públicos
Na avaliação de Silvana, o Cordão Valu teve papel decisivo na mudança da relação de Campo Grande com o carnaval de rua e com a ocupação dos espaços públicos. Segundo ela, quando o bloco surgiu, não havia tradição de desfiles independentes e existia resistência à utilização das ruas para a festa popular, cenário que começou a se transformar a partir da experiência proposta pelo grupo ao longo dos anos.
“O Cordão Valu nasce desse desejo de ocupar a rua com alegria, cultura e convivência, mostrando que o espaço público é lugar de encontro e pertencimento. Com o tempo, ajudamos a consolidar um carnaval de rua democrático, gratuito e acessível, que inspirou outros blocos e fortaleceu uma rede de artistas e coletivos. A rua passou a ser um espaço de vivência, memória e afeto, e esse novo olhar sobre o carnaval e sobre a cidade é, para mim, um dos legados mais importantes que o Cordão Valu deixa para Campo Grande”, ressalta a idealizadora.
Após alcançar a marca de 20 anos, o Cordão Valu passa a lidar com o desafio de crescer sem se distanciar de sua essência. A manutenção do caráter popular, democrático e afetivo do bloco, mesmo diante do aumento de público e visibilidade, exige atenção à sustentabilidade do carnaval de rua, à organização do evento e ao diálogo permanente com o poder público, além do cuidado com a ocupação responsável dos espaços da cidade.
“Nosso maior desafio é continuar crescendo sem perder a essência. Queremos garantir que a rua siga sendo um espaço seguro, inclusivo e de convivência, cuidando da cidade, dos moradores e de quem participa da festa. Mais do que crescer em números, queremos aprofundar o sentido do que fazemos: um carnaval de rua feito com alegria, diversidade e afeto, que contribua para uma Campo Grande mais viva e humana”, finaliza Silvana.
Tradição
Desde a sua criação, o Cordão Valu, tem no seu DNA, a tradição dos carnavais do passado, com a predominância das marchinhas, do samba raiz, e do uso de fantasias. O Cordão é democrático, familiar e inclusivo. Nele, desfilam famílias inteiras, dos avós aos netos. A criançada cai na folia, que também tem espaço para pessoas com deficiência. Tudo, em um ambiente cercado de segurança. Nesses vinte anos, o Cordão Valu reuniu muitas histórias, envolvendo personagens, sonhos e samba no pé.
Por Amanda Ferreira