Sem salário, 50% dos funcionários da Santa Casa param novamente; crise financeira persiste apesar de repasses milionários

Foto: Reprodução/MPT-MS/arquivo
Foto: Reprodução/MPT-MS/arquivo

Pelo segundo mês consecutivo, funcionários da Santa Casa de Campo Grande paralisaram parcialmente as atividades nesta sexta-feira (9) após o atraso no pagamento dos salários. Sem receber no quinto dia útil, cerca de 50% dos trabalhadores cruzaram os braços e realizaram um protesto em frente ao hospital. O ato foi aprovado em assembleia pela manhã e mantém apenas metade da força de trabalho em atividade, conforme exigências legais.

O presidente do Siems (Sindicato dos Trabalhadores na Área de Enfermagem de MS), Lázaro Santana, afirmou que o clima entre os trabalhadores é de insegurança e indignação. Após paralisações em dezembro, o 13º salário foi parcelado, e agora o não pagamento da folha reacende o temor de mais atrasos. “Mais uma vez, um dia de humilhação na Santa Casa de Campo Grande. Virou rotina, virou piada”, disse o sindicalista.

Segundo Santana, a direção do hospital atribuiu inicialmente o atraso à falta de repasses estaduais e, posteriormente, a problemas técnicos no sistema de transferência da Prefeitura. A presidente da Santa Casa, Alir Terra, disse que houve um problema de TI na administração municipal, mas garantiu que, assim que o recurso fosse creditado, o pagamento seria realizado.

De acordo com o secretário municipal de Fazenda, Isaac José de Araújo, que assumiu o cargo na quinta-feira (8), uma “série de situações” provocou o atraso. O repasse de R$ 6,2 milhões, segundo ele, foi efetivado somente na manhã desta sexta-feira, após dificuldades relacionadas ao fechamento de sistemas e à própria transição na pasta.

Repasses ampliados e convênio prorrogado

A paralisação ocorre mesmo após a Prefeitura formalizar, entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, dois novos aditivos ao convênio firmado com a Santa Casa. Juntos, os documentos somam mais de R$ 57 milhões em recursos extras e prorrogam a vigência do acordo até abril de 2026.

O 45º termo aditivo, assinado em 23 de dezembro, prorrogou o convênio por 60 dias, até 30 de janeiro, e acrescentou um aporte emergencial de R$ 1 milhão referente a dezembro, além de incluir correção mensal de R$ 1,86 milhão pelo IPCA, determinada judicialmente. Assim, o hospital passou a receber quase R$ 2,9 milhões adicionais por mês a partir de dezembro de 2025.

Já o 46º termo aditivo, firmado em 7 de janeiro de 2026, ampliou de forma expressiva os valores destinados ao hospital: R$ 54,18 milhões em repasses municipais, estaduais e federais. Do total, R$ 15,1 milhões serão pagos pela Prefeitura até abril; R$ 23 milhões virão do Governo do Estado; e R$ 16 milhões da União, via emendas parlamentares.

Esse segundo aditivo também prorrogou o convênio para vigorar até 30 de abril de 2026, mantendo as demais cláusulas, desde que não conflitantes com os novos termos. Os documentos reforçam a dependência do hospital em relação a aportes extras, negociações com o Ministério Público e decisões judiciais para manter suas atividades.

Crise estrutural permanece

Mesmo com os repasses milionários, a Santa Casa segue em situação crítica. Em dezembro, o hospital recebeu um aporte emergencial de R$ 54 milhões como tentativa de evitar o colapso total da unidade — o maior hospital filantrópico de Mato Grosso do Sul. O acordo, mediado pelo Ministério Público, envolveu Estado, Município e direção do hospital, e foi condicionado a regras rígidas, incluindo auditoria externa, mudanças na gestão financeira e proibição de uso da verba para pagamento de fornecedores ou dívidas bancárias.

O dinheiro deveria ser destinado exclusivamente para quitar salários atrasados, 13º e manter os serviços essenciais. Ainda assim, a nova paralisação mostra que o repasse não estabilizou o fluxo de caixa. A Santa Casa opera com déficit mensal estimado em cerca de R$ 12 milhões.

O próprio procurador-geral de Justiça e a direção reconhecem que o aporte não resolve os problemas estruturais, mas apenas “ganha tempo” para evitar uma interrupção dos atendimentos nos próximos meses. Em até 90 dias, uma auditoria deve apresentar um diagnóstico detalhado da gestão e embasar um plano de ação para reorganizar a instituição.

Enquanto isso, funcionários continuam enfrentando atrasos salariais e incertezas sobre o futuro da unidade, em meio a negociações permanentes para manter o hospital funcionando.

 

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