Espetáculo reúne mágica do conto clássico dos irmãos Grimm e críticas bem humoradas
Uma casa feita de doces, dois irmãos perdidos em uma floresta e uma bruxa má. Muitos conhecem a história de João e Maria, mas o espetáculo ‘João e Maria – Entre lágrimas, risos e vilanias!’ trará uma releitura sensível, crítica e bem-humorada do clássico dos Irmãos Grimm, em apresentação neste sábado (10), no Centro Cultural José Octávio Guizzo.
A peça integra os projetos do Centro de Referência de Esporte e Cultura Escolar do Estado, por meio da SED (Secretaria de Estado de Educação), da SETESC (Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura) e do NUAC (Núcleo de Arte e Cultura).
Nesta adaptação, o público é convidado a enxergar o que o conto tradicional nunca contou. Entre a fome, a manipulação e os segredos que rondam um lar em ruínas, João e Maria descobrem que o verdadeiro perigo pode morar dentro de casa. A madrasta, com seu charme venenoso e frases dignas de uma vilã de novela, transforma cada gesto em jogo de poder, enquanto o pai, frágil e dominado, tenta manter a esperança viva.
Quando a inocência das crianças é lançada à mata, a jornada torna-se um espelho da própria condição humana: o medo, a astúcia e o amor entre irmãos enfrentando as tentações de um mundo doce demais para ser real. No caminho, surgem figuras cheias de simbolismo, como a fofoqueira que destila veneno e uma voz materna que ecoa como lembrança e guia.
Tudo se mistura em um espetáculo que alterna humor e crítica, encanto e ironia, revelando o outro lado de uma história que julgávamos conhecer. Porque, afinal, nem sempre a bruxa é a mais perigosa e nem todo sorriso é doce como parece.
Temática
O espetáculo marcará a conclusão bem sucedida do primeiro curso de teatro realizado no Centro de Referência, que começou em maio de 2025, ministrado pelo diretor e professor Daniel Smidt.
Para o Jornal O Estado, Daniel revela que o espetáculo propõe uma versão ‘nunca contada’ da história, jogando luz a situações passadas por João e Maria, que podem se encaixar em situações atuais.
“Quis mostrar aquilo que a gente nunca vê na história tradicional: o que acontece DENTRO daquela casa antes da floresta. Não é só sobre duas crianças abandonadas, é sobre silêncio, manipulação, segredos, amor doído e escolhas desesperadas”, explicou.
“Revisitar isso agora é importante porque vivemos um período em que se fala de saúde emocional, família, responsabilidade afetiva… mas, ao mesmo tempo, muita coisa ainda é varrida para debaixo do tapete. ‘João e Maria’ sempre foi sobre sobrevivência, mas hoje a pergunta é outra: sobreviver a quê — e a quem?”.
Com essa premissa, o espetáculo pretende trazer humor e crítica de maneira constante, mas o diretor esclarece que o riso não é usado para abrandar os temas mencionados, transformando-os em comédia.
“Ele [o riso] é um recurso humano. A gente ri para suportar, para conseguir olhar para o que dói. Então o público ri, se diverte, se envole, e de repente percebe que está rindo de situações que são, no fundo, muito sérias. O riso ajuda a aproximar a plateia do tema e quando ela se dá conta, já está pensando, sentindo, conectada”.
Processo
Além do trabalho artístico, o processo envolveu os alunos também nos bastidores, produção e apoio técnico, permitindo uma vivência completa do fazer teatral.
“Construir um espetáculo significa pensar no todo: interpretação, cenário, figurino, ritmo de cena e ver os alunos assumirem esse processo com tanta entrega é muito emocionante. Esse trabalho é fruto de dedicação coletiva”, destaca Daniel”.
A aluna e atriz Giovana Marysol, intérprete de Maria, relata a importância da experiência:
“Desde o início do ano, estou fazendo aulas de teatro na NUAC e tem sido uma experiência muito legal. Já aprendi diversas técnicas e percebo o quanto me desenvolvi artistica e pessoalmente. Esse processo do espetáculo está sendo desafiador e, ao mesmo tempo, extremamente especial e transformador”.
Para o Prof. Dr. Fábio Germano, gestor do Núcleo de Arte e Cultura, o projeto evidencia o poder da arte na educação:
“É muito bonito ver os alunos se descobrindo, criando e ocupando palco e bastidores. Isso mostra a força da arte na formação humana. Este espetáculo representa aprendizado, dedicação e comunidade”.
O elenco conta com Giovana Marysol, Samuel Mello, Higor Lopes, Nanda Almeida, Suely Rodrigues, Karol Milk, Carol Silveira e Emily Cabral.
Personagens
Um dos personagens emblemáticos da história é a madrasta. Em algumas versões, ela é boa, em outra má, e algumas histórias trazem a madrasta e a bruxa como a mesma pessoa. Na montagem, ela não é só a vilã, enfatiza Daniel. “Ela é sedutora, charmosa, venenosa, tem algo de novela brasileira. Tem ‘Carminha’, tem ‘Nazaré Tedesco’, tem aquela vilã mexicana que sorri doce enquanto trama o pior. É uma maldade inteligente, que não grita, mas sim manipula. E o pai é esse homem que ama, mas falha. Não é mau, é fraco. E isso também machuca. Isso conversa muito com famílias reais: nem toda violência é tapa. Tem violência que vem em forma de pressão, chantagem emocional, controle. E tem omissão que dói tanto quanto agressão”.
Além disso, ao afirmar que “nem sempre a bruxa é a mais perigosa”, o espetáculo desloca o eixo do medo. “O que realmente me interessava era mostrar que, por mais que a bruxa seja terrível, o lugar mais perigoso não é a floresta, é a casa. O verdadeiro medo nasce dentro do lar, nas manipulações, nas mentiras, no controle emocional e nas armações da madrasta. Esse é o perigo silencioso, sofisticado e muito humano”, revela o diretor.
“A ideia é justamente provocar essa inquietação: o público sai do teatro pensando, impactado, talvez até em silêncio por alguns segundos, porque descobre que a história ainda não acabou totalmente. Existe uma ponta solta, uma sombra, um “isso não termina aqui”. Talvez seja uma continuação… talvez seja apenas a vida lembrando que alguns medos não desaparecem tão facilmente”, complementa.
Já outros personagens darão o tom da identificação com situações atuais e de sentido humano. “Esses personagens ampliam a leitura da história. A fofoqueira é aquela sociedade que vê tudo, comenta tudo, mas não ajuda. O velho sábio traz esse olhar filosófico, quase espiritual, que lembra que a vida nem sempre dá respostas fáceis. E a voz da mãe é afeto, memória, proteção que continua existindo mesmo na ausência. Eles ajudam a tirar João e Maria do ‘conto de fadas infantil’ e transformam essa jornada em algo humano, emocional, existencial”.
Sobre o Diretor
Daniel Smidt é diretor teatral e educador, atuando na formação de jovens e artistas em Campo Grande. Atualmente dirige uma escola de teatro na capital e assinou a direção do espetáculo “Filho do Pantanal”, produção premiada e protagonizada por atores com deficiência, reforçando seu compromisso com inclusão, acessibilidade e democratização da arte.
Apoio e parcerias
A iniciativa conta com apoio de instituições como FCMS, FEBAFAMS, Sanesul, Delegacia da Receita Federal em Campo Grande e do Centro de Referência de Esporte e Cultura Escolar do Estado, reforçando a integração entre arte, educação e cidadania nas escolas estaduais.
Serviço: O espetáculo ‘João e Maria – Entre lágrimas, risos e vilanias!’, será realizado neste sábado (10), às 18h, no Teatro Aracy Balabanian, no Centro Cultural José Octávio Guizzo, na rua 26 de agosto, 453, Centro. A entrada é gratuita, mas é preciso reservar os lugares por meio do Sympla.
Por Carolina Rampi