A falta de segurança nas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) de Campo Grande tem sido denunciada por pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde, que relatam furtos recorrentes, invasões de áreas restritas e ausência de controle de acesso, inclusive durante a madrugada. Vídeos publicados nas redes sociais mostram pessoas entrando nas unidades, fingindo ser pacientes, e furtando celulares, bolsas e outros pertences de quem está internado ou acompanhando familiares.
Um desses registros foi feito por Ingrid Nathalia durante a internação do filho na UPA Coronel Antonino. No vídeo, ela relata que uma mãe que acompanhava uma bebê em convulsão teve o celular furtado enquanto cochilava em uma sala lateral. “Ela acordou com um rapaz dentro da sala pegando o celular dela. Ele entrou pela janela. A funcionária falou que isso é normal, que isso acontece sempre. Esses dias foi uma bolsa, esses dias foi um celular”, disse.
Ingrid afirma ainda que pacientes e acompanhantes deixaram de dormir por medo. “A mãe já está preocupada com a criança doente e agora tem que se preocupar em não descansar. Eu fiquei com medo, não dormi”, relatou.
A publicação ganhou repercussão e outros usuários relataram situações semelhantes. Entre os comentários estão: “É triste não ter segurança nem na hora da doença”; “Cadê a Guarda Municipal que fica na unidade de prontidão?”; e “Está tudo uma porcaria: segurança, atendimento, tudo.”
Caso registrado oficialmente
O relato coincide com uma ocorrência registrada na madrugada de quarta-feira (7), quando uma enfermeira de 31 anos teve o celular furtado dentro da UPA Coronel Antonino enquanto acompanhava a filha na ala de isolamento. Segundo o boletim de ocorrência, ela cochilou por instantes quando um homem entrou no local e levou o aparelho. Ao acordar, tentou impedir o furto e arrancou parte da camiseta do suspeito, que conseguiu fugir.
O celular, um iPhone com rastreamento ativado, foi localizado minutos depois em uma residência próxima à unidade. No local, a Polícia Militar encontrou um jovem de 19 anos com o aparelho, que afirmou tê-lo comprado por R$ 100 de outro homem, de 40 anos, que não foi localizado. O jovem foi levado à Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) do Cepol por suspeita de receptação, e o autor do furto segue foragido.
Na UPA ficaram um chinelo preto e parte da camiseta vermelha usados pelo suspeito durante a ação.
Dados oficiais
Dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) indicam que 31.357 ocorrências de furto foram registradas em Mato Grosso do Sul em 2025, sendo 14.994 em Campo Grande. Em 2026, até o momento, não há registros consolidados no sistema, e não é possível especificar o tipo de furto nem o local exato onde ocorreram.
Irregularidades estruturais
Além dos furtos, a UPA Coronel Antonino foi alvo de uma visita técnica do Conselho Municipal de Saúde, que resultou no Ofício nº 95/CMS/SESAU, encaminhado à Secretaria Municipal de Saúde. O documento aponta graves irregularidades estruturais, prediais, assistenciais e de segurança na unidade.
Entre os problemas listados estão fios elétricos expostos, tomadas soltas, infiltrações, mofo, ar-condicionado inoperante na triagem e na enfermaria, janelas quebradas, mobiliário deteriorado, ausência de controle de acesso a corredores internos e portas sem tranca no estacionamento.
O Conselho também relatou condições indignas no repouso dos trabalhadores, com camas quebradas, colchões deteriorados e ambientes insalubres, além de falhas graves na segurança institucional, como livre circulação de pessoas em áreas restritas e relatos de medo por parte dos profissionais.
No ofício, o Conselho determina que a Secretaria adote providências imediatas para eliminar riscos elétricos e estruturais, restabelecer a climatização, apresentar plano formal de intervenção, substituir mobiliários danificados, regularizar o repouso dos trabalhadores e implementar medidas efetivas de controle de acesso e segurança.
O documento alerta que a manutenção dessas condições pode caracterizar omissão administrativa grave e ensejar encaminhamento aos órgãos de controle externo.
Durante a apresentação do novo titular da Secretaria Municipal de Saúde, o Dr. Marcelo Vilela confirmou que já iniciou nesta semana, as tratativas com a Agetec (Agência Municipal de Tecnologia da Informação e Inovação de Campo Grande) para oferecer ferramentas tecnológicas que ampliem a segurança dentro das unidades de saúde de Campo Grande.
Por Suelen Morales, colaborou Ana Clara Julião