Memória, história: invenções do passado e negacionismos na contemporaneidade

Foto: divulgação
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“O que significa a história para a constituição de uma cultura? Ela previne e desvia: é preciso se servir dela como de um demônio, ou não se servir dela absolutamente. (F. Nietzsche). O filósofo alemão Friedrich Nietzsche escreveu, em diferentes obras, que a natureza exigiu, no animal homem, a criação da memória: o ter que lembrar. Curioso e enigmático trabalho, diz Nietzsche, pois podemos compreender que a memória significa uma teia contra si em oposição à faculdade inata do esquecimento, àquela que, na criança, é garantia da alegria e da felicidade. Entretanto, a natureza quis para si um animal que pudesse prometer, que deveria ter a consciência firmada na necessidade de possuir responsabilidades, para poder ser, num primeiro momento, “confiável, constante e necessário”, e para, enfim, a espécie dispor de futuro, uma tal equação se impôs ao homem.

Na condição de um animal dotado de memória, fincou-se um eterno ter que lembrar sobre o que se passou, uma eterna consciência da morte e dos perigos do esquecer e ser esquecido, de uma vida avaliada como imperfeita sob os afetos do “assim foi” e, por outro lado, o peso que tudo isso significa em infligir ao homem ir de superação em superação, a buscar resgatar as suas dívidas e a impor as suas marcas no tempo e, sobretudo, a impor sobre o tempo, na história, um sentido para a existência.

Por óbvio, nessas condições existenciais, ninguém está isento ou poupado de estudar o passado – de ter um passado para si, seja um indivíduo ou sociedade. Poderíamos admitir que por isso a disciplina da História figurou como primordial na cultura, especialmente depois que no século XIX, no Ocidente, tudo que era sólido, desmanchara-se no ar, conforme inspirada análise de Marx sobre o fim das tradições, ou com Nietzsche a respeito da “morte de Deus”.

Quis a disciplina da História, especialmente, em suas formas de filosofias da História, mas, também, nas formas emergentes científicas, substituir ou preencher o vazio de sentidos que as narrativas mitológicas e religiosas cristãs afirmavam. No entanto, conforme Nietzsche, elas acabaram por acompanhar a reprodução de um último e poderoso nicho de convicção metafísico, a crença na verdade.

A crença de que é possível, pela ciência, alcançar a essência, a substância e as leis das coisas. O pressuposto de que existe uma verdade no mundo, na natureza e na história, e de que ela é superior e mais benéfica que o erro para a vida, conduziu o paradigma moderno da ciência sob o “télos” do progresso. No caso da História, de um curso necessário do tempo.

Essa convicção metafísica na verdade é para o filósofo alemão, autor de “Genealogia da moral”, o substitutivo e último grão daquela crença na existência de Deus.

Parece que hoje, finalmente, nada disso resiste mais ou, melhor, que seus fundamentos foram imensamente abalados. De conclusão em conclusão, nas últimas décadas, entendemos que mundo, natureza e história não possuem sentidos próprios e teleológicos, somente aqueles que inventamos e construímos para nós, a fim de dotarmos a nossa existência de um mínimo de estabilidade e segurança. Devemos, agora, ter em nossa consciência que bem e mal são interpretações morais sobre o devir. O erro, a falha, a falta são constitutivos da existência e o conhecimento sobre ela é tanto melhor se, também, assim o for.

Tudo isso traz, é evidente, abalos e repercussões mais ou menos amplos na contemporaneidade. No campo científico e, particularmente na História, a crise é evidente. Por um lado, temos aqueles que gostariam de voltar ao paradigma anterior e se agarrar à caduca senhora que chamamos de “a verdade”; por outro, temos todos os tipos de oportunismos acadêmicos, de mercado e políticos que relativistas e negacionistas desejam pescar em águas turvas, sob argumentos os mais cínicos e perigosos para a sociedade, homem e natureza.
Mas, acreditamos, com Nietzsche, ser possível uma aposta diversa: um conhecimento possível, perspectivo, falho e pluralista que não nos entrega mais um chão perene de segurança e convicções, mas que abre e se aventura no tempo-espaço para novas criações de nós mesmos. E que, ciência da História, permite-nos escolher e inventar nossos passados, de cura de nossas dolorosas feridas e, sobretudo, de apropriações de queridas e poucas lembranças, aquelas que nos fortalecem e que queremos, mais uma vez, lembrar, e tudo o mais poder esquecer.

Damião Duque de Farias é Professor Doutor em História, Titular do Curso de História da UFGD e membro do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em História da UFGD; pesquisador de temas de História intelectual e recepção da filosofia de Nietzsche no Brasil. E-mail: damiaofarias@ufgd.edu.br

 

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