Enquanto casos de abuso e tentativas de sequestro expõem falhas no sistema, motoristas também relatam assédio, punições sem defesa e, em alguns casos, atuam como peças-chave no combate à violência
O crescimento dos aplicativos de transporte mudou profundamente a forma como milhões de brasileiros se deslocam pelas cidades. Ao mesmo tempo em que ampliaram o acesso à mobilidade, criaram também um novo território de vulnerabilidades, conflitos e responsabilidades. Dentro dos carros, circulam diariamente mulheres, crianças, adolescentes, trabalhadores e motoristas que, muitas vezes, se encontram pela primeira vez em ambientes privados, mediados apenas por um aplicativo.
Esse cenário tem revelado um paradoxo: os carros por aplicativo podem ser palco de tentativas de sequestro, assédio e violência, mas também se transformam em espaços de proteção, denúncia e até salvamento de vítimas.
Mais de 90 mil crianças e adolescentes desapareceram no Brasil entre 2021 e abril de 2025. Desse total, mais de 34 mil casos seguem sem solução, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. No mesmo período, o país registrou 1.492 feminicídios em 2024 e 87.545 estupros – o maior número da série histórica, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025.
Os registros de desaparecimento de janeiro a abril de 2025 (7.331 casos) ainda são parciais. O Ministério da Justiça informou que Alagoas e o Rio de Janeiro não enviaram os dados referentes a abril, enquanto Goiás, São Paulo e o Distrito Federal encaminharam informações incompletas.
O sistema consolida apenas os números enviados pelas secretarias estaduais, o que indica que os 90.256 casos registrados desde 2021 representam apenas os dados efetivamente reportados pelas unidades da federação.
Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, não há estatísticas específicas sobre sequestros, tentativas de sequestro ou desaparecimentos no sistema da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública).
Tentativa de sequestro em Campo Grande expõe falhas na proteção de adolescentes
Na noite de quinta-feira (1º), uma adolescente de 17 anos pulou de um carro de aplicativo em movimento após denunciar uma tentativa de sequestro. Segundo o boletim de ocorrência, o motorista teria cancelado a corrida, trancado as portas do veículo e anunciado que seguiria para a casa dele.
À polícia, a jovem relatou que o motorista alegou falta de pagamento antes de travar as portas e mudar o destino. A mãe da adolescente, no entanto, afirmou que a corrida estava paga pelo aplicativo e havia sido solicitada por um conhecido da família. Durante o trajeto, o motorista passou a observá-la pelo retrovisor e fez comentários dizendo que queria “ficar com ela”. Após a recusa, o trajeto foi alterado.
A situação se agravou quando o veículo parou em um semáforo. “Ele disse que ela não iria se arrepender de ficar com ele. Quando ela tentou abrir a porta, o motorista travou”, relatou.
A adolescente conseguiu sair do carro quando o veículo reduziu a velocidade e pediu ajuda a moradores da região. Uma mulher acionou a Polícia Militar e permaneceu com a jovem até a chegada da equipe.
O motorista, identificado apenas como Josimar, ainda não foi localizado. Houve três tentativas de contato com o Conselho Tutelar, sem sucesso. A adolescente não sofreu ferimentos e recusou atendimento médico.
O outro lado: motoristas também ocupam uma posição vulnerável
Em Campo Grande, condutores relatam que recebem treinamentos sobre postura, respeito e prevenção ao assédio, mas criticam a forma como denúncias são analisadas e punições são aplicadas pelas plataformas.
Roberto (nome alterado), motorista há mais de cinco anos, afirma que foi banido da Uber após pedir que uma passageira se sentasse corretamente na motocicleta.
“Eles mandam vídeos de 20, 30 minutos, você tem que assistir e responder as questões. É um cursinho básico, mas pelo menos o motorista já fica atento. Mas eu fui banido sem direito de defesa. Uma passageira fez um ‘report’ e eles me bloquearam. Nunca tive problema antes”, relata.
Ele concorda que o combate ao assédio é fundamental, mas critica o que chama de assimetria do sistema.“Não dá para ter rigor só para um lado. Às vezes você fala uma coisa e o passageiro diz que se sentiu constrangido. O aplicativo já te bloqueia. A gente vive disso.”
Django Córdoba, de 50 anos, conta que já foi assediado por passageira alcoolizada durante uma corrida.“Ela começou a tentar me tocar, falar coisas que não eram boas. Pedi para parar, ela insistiu. Quando eu falei que estava gravando, ela recuou. Hoje evito rodar à noite por isso.”
Segundo ele, a gravação das corridas se tornou uma ferramenta de autoproteção. “A partir do momento que você fala que está gravando, a pessoa muda de comportamento. É uma forma de se proteger, de ter prova, porque depois fica só a palavra de um contra a do outro”, explica.
Quando o motorista vira peça-chave contra o crime
Ao mesmo tempo, há motoristas que se tornam centrais no enfrentamento a crimes graves. Foi o que ocorreu no caso da prisão do norte-americano Floyd Wallace Junior, acusado de exploração sexual infantil no Brasil. Em dezembro, um motorista estranhou quando duas meninas entraram sozinhas em seu carro no Rio de Janeiro sem saber explicar o destino e usando tradutor para se comunicar.
Ele alterou levemente o local de desembarque, percebeu o comportamento suspeito do homem que aguardava as crianças, denunciou à plataforma e as autoridades foram acionadas. A investigação levou à prisão do suspeito em São Paulo. Com ele foram encontradas câmeras escondidas, celulares, pendrives e equipamentos usados para gravar vítimas sem consentimento.
Por sua vez, a Uber afirma que tem investido em treinamentos para identificação de sinais de tráfico de pessoas e ampliado parcerias com organizações como MeToo Brasil, UNICEF, Instituto Liberta e Childhood Brasil.
“Na dúvida, denuncie. Achou estranho, denuncie”, reforça Cinta Meirelles, diretora da ONG The Exodus Road Brasil.
Para o motorista que ajudou a revelar o crime, a atitude não foi heroica. “Eu me sinto um cidadão. Se você puder fazer um gesto de socorro, faça”, disse em entrevista ao Fantástico.
Por Suelen Morales
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