Capital sedia sessões gratuitas e oficinas com filmes de cineastas indígenas, quilombolas e ribeirinhos
Campo Grande abre espaço, a partir desta segunda-feira (1º), para um debate urgente que conecta arte, memória e futuro. A capital recebe a 15ª Mostra Cinema e Direitos Humanos, que em 2025 coloca em pauta o tema “Direitos humanos e emergência climática: rumo a um futuro sustentável”. As sessões, todas gratuitas, acontecem no Teatro do Paço, reunindo filmes assinados por cineastas indígenas, quilombolas, ribeirinhos e realizadores de diversas regiões do país. A proposta é provocar reflexão sobre desigualdades, resistência e justiça climática, destacando o audiovisual como instrumento de diálogo e mobilização social.
Criada pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a Mostra consolidou-se como uma das ações mais importantes da pasta no campo da educação e cultura em direitos humanos. Em sua 15ª edição, o evento é realizado em parceria com a UFC (Universidade Federal do Ceará), por meio do Curso de Cinema e Audiovisual, e conta em Campo Grande com o apoio da Prefeitura Municipal, da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul e da produção local de Tania Sozza e Sara Gonzaga, da Render Brasil.
Além das exibições, a formação também ocupa lugar central na iniciativa. Em todas as cidades participantes, a Mostra promove oficinas preparatórias, em Campo Grande, elas ocorreram entre os dias 4 e 6 de novembro, no Centro Cultural José Octávio Guizzo, conduzidas pelo diretor e roteirista Fabio Flecha. Ao longo de nove horas de encontros, os participantes foram convidados a explorar o cinema como ferramenta de afirmação cultural, preservação de saberes tradicionais e conexão sensível com a terra e o território.
Produção em MS
A produtora local Tania Sozza, da Render Brasil, explicou ao Jornal O Estado, como a equipe conseguiu organizar a Mostra em Campo Grande com apenas cinco dias de programação e menos de um mês de produção local. Segundo ela, o sucesso do evento se apoiou em três pilares: a experiência da equipe, a sinergia institucional e a parceria estratégica com lideranças indígenas.
A Fundação de Cultura do Estado cedeu o Centro Cultural José Octávio Guizzo para a oficina audiovisual com o diretor Fabio Flecha, enquanto a Prefeitura disponibilizou o Teatro do Paço para as sessões de cinema. Já a colaboração com a Subsecretaria de Políticas Públicas para a População Indígena, por meio de Silvana Terena, garantiu uma abertura imersiva, com decoração temática, comidas típicas e exposição do artesanato local, reforçando a identidade cultural da Mostra. Na comunicação, Tania destacou que aproximar o tema da emergência climática da realidade local foi decisivo para engajar o público rapidamente.
“Nossa prioridade foi o planejamento estratégico e a eficiência logística. A parceria com as lideranças indígenas trouxe autenticidade ao evento, especialmente na abertura, com decoração temática, comidas típicas e exposição das mulheres artesãs. Isso não só fortaleceu nossa identidade cultural, como também criou uma experiência sensorial única para o público. Além disso, focamos em comunicar o tema da emergência climática de forma que conectasse diretamente com a realidade de MS”, conta.
A presença de produções indígenas, quilombolas e ribeirinhas trouxe um impacto profundo ao público de Campo Grande. Mesmo com curadoria da UFC, essas narrativas dialogam diretamente com os conflitos e a diversidade do MS, aproximando o debate teórico da realidade local. A homenagem à cineasta Sueli Maxakali conecta movimentos indígenas de diferentes regiões, reforçando a defesa da vida e do território dos povos originários.
“O impacto é transformador e urgente para Campo Grande e todo o MS. O público reage com abertura e comoção, buscando se reconhecer nas telas e compreender as lutas dos povos locais. As narrativas indígenas e quilombolas geram engajamento intenso, e a homenagem à Sueli Maxakali une essas lutas, mostrando que a causa é uma só: a vida e o território. O público não apenas ‘gosta’, mas se sente diretamente convocado pela programação”, destaca.
Filmes da Mostra
A 15ª Mostra Cinema e Direitos Humanos exibe 21 filmes selecionados pela professora Beatriz Furtado (UFC) e pela realizadora Janaina de Paula, explorando temas como território, memória, ancestralidade e justiça ambiental. Entre os destaques estão “Do colo da Terra”, de Renata Meirelles e David Vêluz, que mostra o cotidiano indígena em Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Amazonas, e “Cerrado, coração das águas: Conexão Caatinga”, de Fellipe Abreu e Luis Felipe Silva, que acompanha o percurso das águas do Cerrado e os impactos ambientais sobre povos tradicionais.
As exibições estão organizadas em quatro sessões temáticas: Nêgo Bispo/Terra, sobre resistência quilombola e desastres ambientais; Antônia Melo/Águas, com conflitos hídricos e pressões de grandes empreendimentos; Raoni/Floresta, homenageando o líder caiapó e debatendo ameaças à Amazônia; e uma sessão infantil, que aproxima crianças da cultura e do meio ambiente. Todos os filmes têm janela de Libras e legendagem para surdos e ensurdecidos (LSE), e os debates após as sessões também garantem
acessibilidade.
Para Tania, a manutenção da identidade ligada aos direitos humanos passou por três pilares: coerência, representatividade e experiência cultural.
“Garantir acessibilidade, com audiodescrição e Libras, é um direito humano básico. Priorizamos também que as vozes indígenas fossem autoras das narrativas, e não apenas objeto de filme. E a experiência cultural integrada, com culinária tradicional Riri, artesanato das mulheres indígenas e decoração de Silvana Terena, transforma o evento em um ato de valorização cultural e reparação histórica, mostrando que os Direitos Humanos se manifestam em todas as esferas”, explica.
Tania ressalta que a produção local funciona como uma ponte entre os filmes e a realidade de Mato Grosso do Sul. “Não basta exibir um filme; é preciso garantir que ele ‘fale’ com quem está na sala”, afirmou. Segundo ela, trazer lideranças, realizadores e ativistas locais para as mesas de debate é essencial para que a Mostra se torne um espaço de escuta ativa e engajamento cívico, conectando o público às urgências sociais, ambientais e culturais do Estado.
Serviço: A 15ª Mostra Cinema e Direitos Humanos será realizada em Campo Grande de 1º a 5 de dezembro de 2025, com sessões gratuitas no Teatro do Paço (Av. Afonso Pena, 3297, Centro). Mais informações e a programação completa podem ser conferidas no Instagram @mcdh.oficial e no site www.fundacaodecultura.ms.gov.br.
Por Amanda Ferreira
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