26 setembro 2020, 8:05
Casa na Rua Mairinque, um dos endereços do 'esquecimento' na Capital. Crédito: Danilo Galvão

Solidariedade em área carente de Campo Grande junta forças

Sirlei Luz, filha do Seu Sebastião, que aguarda há seis anos por tratamento de um cãncer na fila de espera do sistema público de saúde. Crédito: Danilo Galvão.

Quando o ‘milagre’ é a união de pessoas e a interrupção do esquecimento de quem é abandonado

Foram oito horas de imersão em áreas de extrema vulnerabilidade de Campo Grande, ou, pelo menos, em bairros de periferia, onde as equipes de entrega puderam se deparar com pessoas em problemas extremos. Questões de saúde judicializada, câncer sem acesso a tratamento, a necessidade apenas de um remédio apontado como essencial a uma recuperação, que mesmo custando horrores a um orçamento familiar, e definido na Justiça como direito, não chega a realidade. Foram horas que ensinaram muito mais a quem fez esse papel de solidariedade do quem recebeu o olhar do próximo.

A história começa na última semana de março deste ano, quando um grupo de colaboradores do Jornal O Estado, representando todos os setores emplaca uma campanha interna para a arrecadação de alimentos, que seriam posteriormente destinados a famílias da Capital, mais afetadas pelo ‘tranco’ econômico gerado pelas semanas mais assustadoras do novo coronavírus, quando o município buscou fechar tudo, na tentativa de isolamento para a prevenção de casos de covid-19.

“A gente tinha informações de que muita gente do comércio, e outros segmentos sofreram muito com essa paralisação. Algo que poderia sim ter tornado mais dramática a realidade de famílias em áreas pobres de Campo Grande. Sem falar dos lares que, infelizmente, vivem na linha da miséria. Não apenas por esse momento de pandemia, acho que é fundamental ajudarmos, juntar forças nas empresas, entre as campanhas, entre as pessoas. Só assim alguma coisa melhor acontece”, diz o proprietário do Jornal O Estado, e empresário de outros ramos, Jaime Vallér, um dos incentivadores da iniciativa.

Luciano de Souza, que fabricou o próprio carrinho de catador e olhe se vira com diárias, mas vive mais dificuldade após a pandemia. Crédito: Danilo Galvão.

Potência maior e mais infiltração

A campanha deve seguir até o final de junho, com mais um ação de entregas, na sua segunda etapa. E, na primeira, parte do projeto, dois parceiros essenciais foram o Guardiões da Vida e o Fisioterapia Solidária. Duas situações criadas na sociedade civil, de caráter independente, para engajamento imediato de ajuda ao próximo.

“O Guardiões reúne voluntários de muitas áreas, e foi criado em 48 horas. Do insight de que algo diferente precisava ser feito, até a primeira atividade de campo, foram 72 horas. Com apoio de quem faz parte do projeto, e parceiros, já arrecadamos em Mato Grosso do Sul, 45 toneladas, e também buscamos ajudar com diálogo, doações de equipamentos de saúde, ou até encaminhamento de emprego, quando é possível. Nosso papel é salvar vidas, e exercitar a solidariedade”, explica um dos integrantes do grupo, Marcos Silva. O administrador, inclusive, participou da fundação disruptiva dessa assembleia, que se aciona pelo Whatsapp, e não perde tempo.

Denis Pereira, fisioterapeuta, e ativista social de longa data, foi o articulador para que a campanha ‘Atitude Nota 10’ do Jornal O Estado pudesse agregar com o projeto ‘Fisioterapia Solidária’. Assim como Marcos, que disponibilizou o Guardiões para ampliar o alcance de donativos e de capacidade de doação da ação de responsabilidade social da redação, e amigos.

“É importante todos estarmo conscientes da realidade que vive a nossa cidade. Porque toda ação de apoio, seja com o alimento, seja de aproximação a famílias esquecidas, representa um verdadeiro milagre na vida de pessoas esquecidas pelo Poder Público. Pessoas que já viviam em uma dificuldade danada, e que, neste 2020, ficaram ainda mais vulneráveis”, cita Denis.

Juntas, as três campanhas atenderam aproximadamente cinquenta famílias, que pela solidariedade entre moradores das áreas visitadas, aumentaram a capilaridade das doações. “Vivi esse testemunho de aprender o quanto a solidariedade salva. De tudo que entregamos, a maior parte não atendia apenas a família que recebia o alimento. Porque, nesses espaços urbanos, abandonados pelo Poder Público, as pessoas dividem tudo que tem. Se você dá um pacote de cinco quilos de arroz. Certamente vai um pouco pra cada vizinho. Não acontece só com esse item. Até a água é uma questão crônica. Visitamos lugares de Campo Grande, onde moram mais de mil famílias, e uma parcela enorme delas não tem água para viver. Por isso, é comum o tráfego de baldes nas ruas. Muito triste!”, cita o editor do portal Estado Online, e diretor executivo da TV O Estado, Danilo Galvão.

Letícia de Souza, mandada embora após o covid-19 ter assustado a economia, ao lado do filho de 15 anos que não sabe se pode sonhar. Crédito: Danilo Galvão.

Realidade urgente

Dessa imersão, viabilizada pela primeira fase da campanha, relatos chocantes, e absolutamente sinceros de transformação. Ou de admissibilidade da tragédia social que áreas de Campo Grande passam. Exemplo do menino Mário Márcio, de 15 anos, que construía uma casa improvisada de madeira, quando foi abordado pelos voluntários da entrega.

“Se eu sonho em ser engenheiro? Não sei. Gostaria de estudar, mas não sei se terei esse privilégio. A casa aprendi a fazer, mas não sei se com isso poderia sonhar com uma profissão”, disse o jovem, ao lado da mãe, Letícia Costa, de 36 anos, desempregada, a partir do final de março, quando o novo coronavírus parou a economia.

Grato pelo alimento, mas com fome mesmo de emprego, Letícia é o sinônimo do que acontece muito em outras casas do Jardim Centro-Oeste (um dos polos de atendimento). Como Magno Ernesto, de 24 anos, que busca recolocação na Construção Civil, e do catador Luciano Souza, de 26 anos, pai de dois filhos, e que tem se virado com diárias, em depósito de materiais de construção, como empacotador de supermercado, mas que não consegue fazer sua família comer todos os dias.

“Pode até catar, mas não se compra como antes. Daí então a gente se vira. Tenta, só quer um trabalho. Não posso mentir que dá desespero pra mim e pra minha esposa viver assim, sem saber como superar tudo isso. Parece um pesadelo. A doação ajuda, só que eu queria mesmo um trabalho”, contou emocionado à reportagem.

(Da Redação)

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