17 outubro 2019, 22:20
Crédito: Valentin Manieri

Tradição que resiste ao tempo com misticismo e crendices

Detentores de saberes ancestrais e munidos de preces poderosas que passam de geração a geração, os benzedeiros são referências nas comunidades onde vivem quando os assuntos são os males do corpo e também da alma. Usando água, óleos, ervas, ou apenas as mãos, os benzedeiros fazem parte de uma tradição que ainda ocupa lugar especial em Campo Grande.
Ela fala com o coração aberto, a mente sábia e a alma iluminada. “Olha, minha filha, é uma felicidade tão grande que eu não tenho palavras para dizer. A coisa que eu mais gosto é quando a pessoa chega aqui e fala que já veio aqui e que vai voltar todas as vezes que precisar.”

Foi em uma casa simples na vila Piratininga que conhecemos a dona Maria do Carmo, uma senhora abençoada. Ela tem 88 anos e é benzedeira há 81 anos, além de ser matriarca de uma família de dois filhos e um neto. Uma vida inteira de muitas histórias para contar.

A fama de benzedeira se espalhou no bairro usando ramos de carambola, arruda e guiné. Ela nos conta que atende muita gente – por semana são mais de 80 pessoas que vão até ela procurar uma limpeza espiritual. “Isso daqui é um dom que Deus me deu. Eu benzia o povo, eles saravam e eu descobri meu dom. As pessoas me perguntam para quem eu vou deixar esse dom quando morrer e eu digo que para ninguém. Muitas pessoas chegam aqui para eu benzer, faço uma oração, porque benzer é orar. Eu saro qualquer problema, é coluna, dor, mau-olhado, mas é preciso ter fé porque, senão, não adianta nada”, conta feliz.

Pedi a dona Maria do Carmo para ser benzida; também queria sentir as boas energias. Esse é um trabalho que ela faz por amor ao próximo, sem pedir nada em troca, aliás, pede saúde para continuar fazendo o bem. “Depois que eu benzo as pessoas e elas vão embora fica o sentimento de que eu ajudei o próximo, de que eu levei coisas boas para cada um deles. Benzer ajuda em muita coisa na vida das pessoas. Abre os caminhos, tira as coisas ruins, quebra maldição jogada. As crianças que eu benzo é sempre para tirar o olho gordo e quebranto”, explica.

Apesar da tradição, encontrar uma benzedeira na Capital é tarefa difícil. No interior, como em Corumbá, por exemplo, cada bairro tem a sua. As benzedeiras ainda têm o carinho daquelas pessoas que acreditam no poder da reza e sabem que serão curadas com o simples gesto da fé, como é o caso da estudante de jornalismo Crislaine Feronato, 26 anos. Mãe da Maria Eduarda, de 6 anos, e da Cecília, de 2 meses, ela conta que conheceu a dona Maria do Carmo por meio dos seus pais, que um dia convenceram ela a levar as filhas para benzer.
“Meus pais iam na dona Maria benzer e um dia eles me convenceram a ir até ela. Eu levei a minha filha Maria Eduarda e isso já tem uns três anos que nós vamos frequentemente benzer. Agora que eu parei de ir, por conta da bebê, mas assim firmemente eu levava a Maria Eduarda”, comenta.

A jovem mãe conta que sempre que vai até a casa da dona Maria para benzer volta de lá diferente, com as energias e ânimo revigorados. “Ir lá melhora o alto-astral. Às vezes, você está cabisbaixa à procura de alguma coisa pessoal na sua vida; ela benze, conversa e já muda, é completamente diferente. O comportamento das crianças também é outro: a Maria Eduarda, às vezes, estava meio rebelde; eu levava lá e ela melhorava o comportamento”, revela.

De acordo com Crislaine, dona Maria é mais que uma benzedeira, é quase uma mãe, que dá conselhos e ensina as coisas boas da vida. “Ela tem os conselhos de gente mais vivida, ela fala ‘não pode fazer isso, não pode fazer aquilo, tem de fazer assim’, ensina os remédios, os banhos. Eu fiz um banho de ervas para limpar o meu caminho e conseguir emprego e um mês e meio depois consegui um estágio.”

Fé que resiste ao tempo

Zuleide Souza da Silva, mais conhecida por “Patinha”, é funcionária pública e mãe de quatro filhos, hoje já crescidos. Ela conta que aprendeu a confiar em benzedeira com sua avó, mãe e sogra. Hábito que passou de geração em geração acompanha seus filhos. “Aprendi com a minha família, passou de pai para filho. Todos meus quatro filhos foram levados na benzedeira, eram benzidos. Além de ser algo que passa de geração em geração, acredito muito no poder das rezas, cresci no meio da umbanda e vi todos ao meu redor serem criados da mesma maneira. Não era só quando estava com suspeita de quebranto, uma dor que não passava, eu os levava por questão de fé mesmo e todos estão vivos, fortes e saudáveis, graças a Deus”, relata.

Ela relembra uma história em que precisou da oração de uma benzedeira para curar o filho de um quebranto. “O meu terceiro filho uma vez pegou um quebranto de bêbado, após um amigo ter chegado em casa e pego ele no colo, quando ele era bebê. Levei ele em uma benzedeira conhecida, chamada dona Mariana, que olhou para o meu bebê e disse que ele estava com quebranto. Levei ele continuamente durante uma semana para benzer. A melhora dele veio no dia seguinte”, relembra.

Sabe aquelas fitinhas vermelhas usadas nas crianças de antigamente para espantar o olho gordo? Então, Zuleide tinha o hábito de colocar em todos os seus quatro filhos, crença que, segundo ela, funcionava. “Todos eles usavam fitinha vermelha e figa de Guiné nos pulsos; ‘minhas bênçãos’ sempre foram santos, mas eram rodeados de proteção divina”, conclui.

* Receita de banho de descarrego

Os banhos de descarrego têm o poder de equilibrar a vida espiritual, amorosa, profissional e ainda abrem caminhos para que coisas boas aconteçam. Esse procedimento tem as propriedades das plantas utilizadas em sua preparação. Cada erva tem seu poder energizante, e isso significa que cada planta serve a determinada demanda. Um dos banhos mais utilizados pelas pessoas é o banho de sal grosso.
A água deve estar em temperatura ambiente. A quantidade de sal utilizada depende da forma que você vai tomar seu banho com sal grosso. Você deve deixar a água levemente salgada. Se for usar um recipiente de tamanho suficiente para passar a água na frente e atrás do corpo, poderá usar um punhado de sal. Jogar a mistura sempre dos ombros para baixo, sem molhar a cabeça. É importante não usar toalha para secar o corpo; o líquido do banho precisa ser absorvido pela pele, destaca dona Maria.

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