10 dezembro 2019, 9:02
Reprodução Agência Senado

Delcídio do Amaral fala com exclusividade ao Estado Online

“Minha família sabe que não terminei minha missão e mesmo não querendo meu retorno à política, elas compreendem”

“Eu fui uma vítima do Sistema.  Mas ao contrário de muitos, eu não tenho nenhum caso de corrupção”

Reportagem especial por Rafael Belo

“Graças a Deus o senador de todos voltou. Estou de volta para vida”, refletiu Delcídio do Amaral Gómez depois de contados três anos e oito meses afastado da política. Ele nos revelou, ao celular, como está agora. Com a voz experiente e confiante, mas visivelmente abatida e resignada, indicando ainda algo a cumprir, Delcídio não escondeu como todo o processo mundialmente repercutido não será esquecido, pelo contrário virou aprendizagem depois da decisão em última instância o livrando de toda as acusações políticas e judiciais.

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“Abateu muito e não é fácil você superar tudo isso. Eu estou procurando manter minha postura de sempre. Tudo isso me deu a oportunidade de aprender algumas coisas que eu não enxergava mais. Comecei a dar valor as coisas simples da vida, que eu não percebia, que eu não me atentava mais”, revelou com a voz embargada mas se recuperando: “Eu fui uma vítima do Sistema. Ao contrário de muitos, eu não tenho nenhum caso de corrupção. Meu caso, era um caso de obstrução de Justiça agora anulado”, cutucou.

Delcídio se abriu contando seu maior sonho: “Ser governador do Estado em que nasci”! Porém, também confirmou os receios da família (As filhas: Dafne Amaral, Maria Eduarda Amaral, Maria Eugênia Amaral e a esposa, Maika do Amaral Gomez). “Elas tiveram uma experiência muito dura e elas próprias têm restrições ao meu retorno para a politica. Mas compreendem. Compreendem que eu não terminei minha missão ainda. É uma missão que Deus dá para poucas pessoas. Através de voto democrático representado. Representar um estado da importância do Mato Grosso do Sul. Então elas sabem que não terminei minha missão e mesmo não querendo meu retorno à política, elas compreendem”, pontuou.

Sul-mato-grossense
Corumbaense, nascido em 1955, é engenheiro e político há mais de 13 anos. Ex-ministro de Minas e Energia no governo Itamar Franco, diretor da Petrobras no governo FHC (Fernando Henrique Cardoso), diretor da Vale quando era Vale do Rio Doce, executivo da Shell na Europa. Delcídio também foi relator de CPIs (Comissão Parlamentar de Inquérito), aliás a presidência da CPI dos Correios foi o maior destaque, de acordo com ele. Por duas vezes foi o maior responsável pela Comissão de Economia. Delcídio passou por todos os presidentes desde Figueiredo até o último. “Eu os conheci bem tive a honra de trabalhar e ajudar estes governos. Eu sou engenheiro antes de qualquer coisa. No Governo do Itamar tive a honra de ocupar o Ministério de Minas e Energia com hegemonia. Eu só tenho a agradecer. Eles Me ajudaram. Me ensinaram muitas coisas”, avaliou.

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Ex-senador pelo Partido dos Trabalhadores (PT) por Mato Grosso do Sul. Foi líder no Senado pelo PT. Também filiado ao Partido Trabalhista Cristão (PTC). Hoje não só está filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) como é presidente da sigla no Estado. Acusado, delatado, cassado e preso, Delcídio do Amaral voltou inocentado e pretende ter todos os seus direitos de volta. Foram 13 anos como senador, mas diferente do número, o Partido dos Trabalhadores (PT) não faz mais parte da vida de Delcídio que agora é presidente do PTB. Mesma sigla de um daqueles que delatou, Roberto Jeferson. O que pode ser a prova que a personalidade sul-mato-grossense carrega uma nova bagagem de aprendizagem.

Delcídio teve a imagem política afetada pela prisão em 2015 quando foi acusado de dificultar a delação premiada de Nestor Cerveró, ex-executivo da Petrobras. Solto em fevereiro do ano seguinte ainda voltou a ser preso em julho, mas foi solto em uma espécie de prisão domiciliar.

Veja a entrevista exclusiva abaixo:

Como foram os 13 anos como senador?
De muito trabalho de poder representar meu Estado e as vontades de nossa gente, do nosso povo, mais de 2 bilhões de reais relevantes para presidente da comissão de economia duas vezes, relator, fui da cpi dos Correios presidente. Tive uma ação parlamentar forte e intensa trazendo investimento para os 79 municípios até para prefeitos contra mim. Procurei ajudar a população. Eu trabalho para o povo. Foram anos que eu agradeço a Deus pela oportunidade para ajudar o Estado, o país.

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Qual é sua a maior conquista nestes 13 anos?
Sob o ponto de vista parlamentar, a presidência da CPI dos Correios. Sob o ponto de vista político e pessoal: a imensidão de recursos que conquistei. Vitórias extremamente relevantes levando recursos para comunidades indígenas, quilombolas, para todos. Nunca fiquei sentado e sempre fui até os lugares e sempre fui à luta. É um legado que deixei e as pessoas sabem. Investimento e benefícios é o mais emblemático.

O senhor se sente com 64 anos?
Não. Não porque o que interessa é a cabeça. Sou um cidadão do mundo. Dirigi a Eletrobrás, a Petrobrás, fui diretor da Vale do Rio Doce, fui executivo da Shell na Europa e eu sempre lido com inovação e com a pluralidade. O Brasil É um lugar muito tolerante e independentemente de gênero, etnia, religião e cultura, este é um país que sempre respeitou todo mundo e o Brasil foi atual como eu sou. Acompanhei tudo de perto. Estou permanentemente inovando e olhando o futuro que sem dúvida rejuvenesço. Sou um camarada que anda com seu tempo, não tenho dúvida nenhuma. Aprendi isso. Até pela experiência de vida que tenho.

O senhor passou por todos os governos. Mas sua história política não terminou bem. Como isso te afetou?
Primeiramente eu era executivo de empresas, não era de nenhum partido, sou engenheiro especialista na área de energia e petróleo, gás, mineração, então fui aproveitado em vários governos. Participava porque era especialista. Engenheiro.

Evidentemente final de 2015 início de 2016, sobreveio esta aberração jurídica que fizeram comigo e agora está comprovado com o julgamento em última instância onde eu fui absolvido e as provas anuladas por unanimidade. Mas naquela época o Congresso estava vulnerável, o PT também e a política é implacável, né.

Naquele momento o raciocínio era o seguinte: vai o Delcídio para gente ficar. Só que ali abriam a porteira. Aí o Ministério Público adentrou o Congresso Nacional. Abriram inúmeras investigações. Operação Lava-Jato adentrou e sobreveio o assunto, o tema Aécio Neves. Aí o raciocínio era exatamente ao contrário. Vamos segurar o Aécio senão nós é que vamos. Enquanto no meu caso era vai o Delcídio senão nós é que vamos, no Aécio era fica o Aécio senão nós é que vamos. Exatamente o raciocínio contrário. Porque aí eles viram que já tinham arrombado as portas.

Então isso levou a essa decisão absolutamente contraditória. Mas eu entendo, eu compreendo. Naquele momento a fragilidade de muitos prevaleceu. Infelizmente eu fui o Boi de Piranha. Consequentemente agora a Justiça provou que cometeram uma grande injustiça comigo. Eu fui uma vítima do Sistema. Ao contrário de muitos, eu não tenho nenhum caso de corrupção. Era um caso de obstrução de Justiça agora anulado.

Então, o senhor voltou para a vida pública?
Graças a Deus o senador de todos voltou. Estou de volta para vida.

É bem visível o quanto isso o afetou. Pode dizer como o senhor se sente diante de todas as reviravoltas em todas as esferas da vida que cultivou?
Abateu muito. E não é fácil você superar tudo isso. Eu estou procurando manter minha postura de sempre. Generosa. Tudo isso eu tive a oportunidade de aprender algumas coisas que eu não enxergava mais. Comecei a dar valor as coisas simples da vida, que eu não percebia, que eu não me atentava mais. Eu tinha uma vida ligada 24 horas. Eu passava mal e porcamente domingo na minha casa. Se você quisesse se esconder de mim era só ir para minha casa. Aí você começa a compreender, né?! Que sua família neste período todo esteve contigo, não entendeu o valor que ela tinha, que ela foi primordial. Foi quem estendeu a mão para você naqueles momentos mais difíceis.

Aí você começa a ver o quanto tua vida era complicada e começa a perceber que as coisas simples é que resolvem seu dia-a-dia. As coisas simples é que são verdadeiras. Então, eu tive muitas lições. Eu acho que pessoalmente eu sai de tudo isso melhor que entrei.

Os planejamentos já começaram com o PTB?

Me filiei ao partido em agosto, agora em setembro assumi a presidência do partido e já estamos andando em várias regiões do Estado. Vamos ajustar alianças, filiar pessoas de respeito. Estas ações todas que continuam depois da vinda do presidente do Partido deputado Roberto Jeferson.

Vamos dar sequência para um projeto, forte, um discurso forte, um programa forte. Para a gente debater e ter uma base forte para as eleições subsequentes sem deixar de lado o debate para o que queremos para Mato Grosso do Sul. Temos o compromisso com a inovação tecnológica, a integração de MS como outros países com vias terrestres e aquáticas. A gente tem um mundo velho pela frente onde lamentavelmente não tem sido discutido o que realmente importa. Será que Campo Grande não pode ser uma cidade de prestação de serviço e de inovação tecnológica com as instituições e as universidades não podem ser referências?

O senhor pretende entrar no executivo de Campo Grande, Corumbá ou almeja o governo?
Por enquanto meu compromisso é partidário. Quero organizar o partido, mas evidentemente vamos discutir Campo Grande, Corumbá e o que o partido determinar eu vou cumprir.

Qual seu maior sonho político?
Meu maior sonho político é ser o governador do Estado onde nasci. Um governo como eu sou: diferente. Não sei se melhor ou pior, mas diferente. Um governo diferente do que temos presenciado e presenciamos. Com estas ideias com este pé na tecnologia e no futuro. Se não tivermos o pé nas incubadoras, nas startups, ficaremos de fora e o mundo anda velozmente. Não dá para ficarmos como diz Zélia e Caetano na eternidade de nós mesmos. Precisamos avançar.

Qual seu maior erro político?
Meu grande erro político foi querer conviver com o status quo. E até pela minha história eu deveria era marcar as diferenças. Se tivesse feito isso talvez eu tivesse sido governador muito antes.

Qual seu desejo para as pessoas que sempre acreditaram em você?
Socializar tudo que aconteceu comigo e o final feliz de eu ter sido inocentado e as provas anuladas. Isso resgata também meus direitos políticos. Desejo que elas continuem acreditando em mim. Porque eu tenho certeza que posso fazer muito mais por Mato Grosso do Sul e pelo Brasil. Ou sendo presidente, governador, senador, vereador, deputado, o que for… Tenho que agradecer primeiro pela confiança e depois continuar honrando as pessoas e assumindo o compromisso.

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