O contrabando de canetas emagrecedoras passou a figurar entre as principais preocupações das autoridades de fiscalização em Mato Grosso do Sul. Medicamentos como tirzepatida, semaglutida e produtos similares, utilizados para perda de peso, deixaram de ser apreensões pontuais e passaram a integrar de forma permanente a lista de mercadorias ilegais que cruzam a fronteira com o Paraguai rumo ao Brasil.
Dados da Receita Federal revelam a dimensão do avanço. Em 2024, o valor estimado dos medicamentos apreendidos foi de R$ 750 mil. No ano seguinte, o montante saltou para R$ 2,4 milhões. Já em 2026, apenas até o mês de maio, as apreensões chegaram a R$ 4,5 milhões, superando com folga os números dos anos anteriores.
Segundo informações da Receita Federal, o crescimento acelerado do comércio ilegal desses produtos colocou a fiscalização em estado de alerta. Embora as apreensões ocorram em diferentes regiões do Estado, a maior concentração é registrada na região de Dourados, considerada uma das principais portas de entrada de mercadorias vindas do Paraguai.
A PRF (Polícia Rodoviária Federal) também passou a monitorar especificamente esse tipo de ocorrência. Os primeiros registros oficiais datam de junho de 2025. Entre junho e dezembro daquele ano, foram apreendidas 5.281 unidades. Já entre janeiro e março de 2026, outras 4.646 unidades foram retiradas de circulação. No total, 9.927 canetas emagrecedoras foram apreendidas pela corporação em menos de um ano.
A extensa fronteira entre Mato Grosso do Sul e o Paraguai favorece a entrada irregular dos medicamentos, que costumam ser vendidos no país vizinho por preços menores e com maior facilidade de aquisição. Após cruzarem a fronteira, as cargas seguem por rodovias para diferentes regiões do país.

Canetas emagrecedoras apreendidasem MS – Foto: Divulgação/arquivo
As apreensões mostram que o esquema não envolve apenas grandes carregamentos. De acordo com a PRF, a maioria dos flagrantes ocorre com volumes entre uma e 200 unidades, transportadas em veículos particulares, encomendas enviadas pelos Correios, transportadoras ou misturadas a cargas de eletrônicos e perfumes. Em alguns casos, os medicamentos são escondidos em compartimentos secretos de veículos, como painéis, para-choques e áreas próximas ao estepe.
A Receita Federal intensificou a fiscalização e destaca que a entrada irregular desses medicamentos configura, inicialmente, crime de contrabando, uma vez que se trata de produto cuja importação é proibida sem o cumprimento das exigências legais. Dependendo das circunstâncias identificadas durante as investigações, o caso também pode ser enquadrado como crime contra a saúde pública.
Embora haja relatos em outras regiões do país sobre o uso de estudantes brasileiros de medicina no Paraguai como transportadores dos produtos, as autoridades afirmam que ainda não há dados que comprovem esse perfil em Mato Grosso do Sul. Mesmo assim, a dinâmica da fronteira facilita a atuação de diferentes tipos de “mulas”, responsáveis por atravessar pequenas remessas e reduzir o risco de grandes perdas para as organizações criminosas.
As autoridades lembram que a entrada de medicamentos no Brasil é permitida apenas em situações específicas. Os produtos precisam ser aprovados pela Anvisa, destinados ao uso próprio, acompanhados de receita médica e em quantidade compatível com até três meses de tratamento. Qualquer situação fora dessas regras pode configurar irregularidade.
Além das questões legais, a PRF alerta para os riscos à saúde. Como muitos desses medicamentos entram no país sem controle sanitário, não há garantia de que tenham sido transportados em condições adequadas de temperatura e armazenamento. Isso pode comprometer sua eficácia, qualidade e segurança, expondo os consumidores a riscos desconhecidos.
Casos recentes evidenciam a dimensão do problema. Em 14 de maio, durante fiscalização na BR-163, em Coxim, equipes da PRF apreenderam 1.641 medicamentos emagrecedores transportados em um veículo utilitário. A carga incluía 1.598 ampolas, 66 canetas para emagrecimento e 426 anabolizantes de origem estrangeira. Duas pessoas foram presas e encaminhadas à Polícia Federal.
No mesmo dia, uma clínica de Campo Grande foi alvo de uma operação conjunta que resultou na apreensão de 1.294 frascos vencidos de medicamentos para emagrecimento. A ação envolveu equipes do Procon-MS, Decon, CRM-MS e Vigilância Sanitária, após denúncias sobre a procedência dos produtos utilizados em procedimentos estéticos.
Os sucessivos flagrantes reforçam o alerta sobre a expansão do comércio ilegal de medicamentos na fronteira sul-mato-grossense. Segundo estudo do IDESF (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras), o tráfico de medicamentos ilegais pode gerar margens de lucro de até 415% para grupos criminosos, tornando o segmento cada vez mais atrativo para organizações que atuam no contrabando. Com o crescimento das apreensões e da demanda por medicamentos para emagrecimento, as canetas já são consideradas uma nova frente do mercado ilegal que opera entre o Paraguai e o Brasil.
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