6 junho 2020, 4:54
Crédito: Divulgação/Quentinhas do Cinema

John Hughes:quando a comédia é relevante

** Por Felipe Gonçalves

Alguns filmes tem mensagens muito importantes por trás de suas de narrativas, independente de ser complexo ou não, essa característica advém das produções mais clássicas, mas não quer dizer que histórias simples não possam ter o mesmo valor. John Hughes é um roteirista e diretor que lá nos anos 1980 teve uma ascensão considerável com filmes divertidos como “Curtindo a vida adoidado” (1986) e “Clube dos cinco” (1985). Fica evidente que o foco sempre é retratar o comportamento de uma geração e algumas vezes da forma esdrúxula, mas a fim de servir também como uma forma de documentar aquele tempo, hoje em dia não podemos nem imaginar viver como nos efervescentes anos 80.

Ferris Bueller é um dos personagens mais interessantes da cultura pop, sua personalidade intrigante sobre o que sabe e o que realmente vai acontecendo no filme. Grande parte de sua persona é saber como não dá pra levar a sério partes de nossa vida, e por que o diretor pudesse usar qualquer outra parte da vida — como a parte da fase adulta onde Ferris teria que fugir da rotina do trabalho por exemplo — mas o diretor e roteirista teve a sensibilidade e porque não a grande habilidade de transpor muito bem essa realidade em que vivemos na adolescência. Os três pilares das obras John Hughes são o cara que tem segurança de seus atos e atenta com o establishment, o jovem perdido em sua insegurança de vida e toda as perguntas que tem diante de seu futuro, e geralmente um personagem feminino que passeia entre esses dois extremos ao mesmo tempo que se sente mais segura de ter suas próprias aspirações. Desenhando assim uma ótima trama que entende muito bem a neurose de ter 16 e ter que tomar algumas decisões cheias de convicções de terceiros.

John Hughes nasceu em 1950, momento de grande virada na cultural,com a geração de seus pais que tinham passado por uma grande depressão e também a segunda grande guerra esses seriam os primeiros da Juventude Transviada evidenciado no brilhante filme Nicholas Ray com o sex simbol da época James Dean. Essa fase é muito importante porque ressoa até os efervescentes anos 1980, década que mudaria o munda como conhecemos até hoje. Os Jovens desse período seriam os que consumiram os videoclipes na MTV, vislumbrando o novo milénio e tudo de novo que essa palavra pudesse acusar.

Algumas pessoas conseguem sintetizar o tempo em que vivem de forma muito fidedigna e isso pode vir de qualquer lugar, John traçou aspectos muito importantes da personalidade uma rapaz cuja a vida tem sido passar a perna nos professores e curtir com os amigos o máximo que puder enquanto ainda há tempo. O que relativiza o tempo em curtindo a vida adoidado é ir para faculdade e se separar dos amigos, família e da própria cidade e de sua fama baderneiro. E com a grande interpretação de Matthew Broderick (talvez a mais significativa de sua carreira) dá vazão a toda insegurança pintada de um controle mambembe do dia representado no filme, dando entender que tudo aquilo é corriqueiro na vida daquele jovem bem apessoado e playboy também porque não, poderíamos ter diversas discussões sobre essa persona e essa é a maior colaboração de John Hughes para cultura pop, criar personagens que à primeira vista pareçam bem superficiais, mas com um olhar mais clínico revelem coisas sobre a sociedade, o momento em que são retratados.Não é atoa que um filme como esse, direcionado a diversão dos verões dos anos 80 tenham notas altas em avaliações críticas.O já falecido John Hughes faz muita falta com sua visão apurada e sensível sobre os problemas de hoje em dia, seu humor ácido e sua visão apurada para o universo jovem e tudo que passamos sem que as pessoas ao redor trate isso como uma crise ou frescura, ele tinha a sagacidade de entender e transpor para as tela dizendo “ eu entendo o que vocês passam” é seu maior legado.

** Jornalista, colaborador da TV O Estado e apresentador do podcast Efeito Surpresa!

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